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Com quanto egoísmo se faz uma manifestação pelo fim do isolamento?

Lia Bock

20/04/2020 14h55

(iStock)

"Aqui só tem gente honesta, que quer trabalhar." A frase dita por um dos manifestantes que foi às ruas no domingo (19) pedir o fim do isolamento é muito traiçoeira. Ela tem ares de gente de bem, mas esconde algo mais profundo. É a típica colocação de quem não pensa nos demais, não tem nenhum senso de coletivo e, mesmo assim, se acha muito humano, correto e merecedor de compreensão. 

Claro que ninguém ia sair na rua gritando: "Não estou nem aí pro coletivo. Morram todos!". E é preciso dizer alguma coisa para ser ouvido. Mas bradar que "só quer trabalhar" soa tão falso que em alguns momentos me pergunto se são todos lunáticos. Mas não é por aí, a coisa é bem mais simples: é egoísmo mesmo. Um tipo de maneira de pensar que tem baixíssimas doses de empatia.

Não é que as pessoas são desinformadas e não sabem que quatro Estados estão com mais de 90% das UTIs lotadas ou que não leram sobre os quase 5 mil mortos em apenas 24h nos Estados Unidos. Eles sabem de tudo isso, mas mesmo assim acham que suas questões individuais têm tanta importância quanto as questões dos outros. E é aí que mora o erro. 

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Não estamos falando de problemas de um ou outro ser humano. Não é "o meu problema versus o seu". Quando falamos no coletivo, estamos lidando com o grupo, com a massa, e é isso que as pessoas socialmente egoístas têm dificuldade de entender. 

Pensar no coletivo é, sim, pensar na maioria, mas mais que isso é levar em conta milhares de variáveis entendendo que nem sempre podemos usar a regra do "dois pesos, duas medidas"

Existem problemas que "valem" mais do que outros. Existem questões que merecem mais atenção e existem pessoas que não têm o tipo de amparo (social, financeiro e psicológico) dos colegas ao lado. Pra quem vive sob a lógica simplista do "somos todos iguais", realmente tudo isso é muito difícil de entender. 

Por essas e outras é tão importante inserirmos o mais rápido possível no vocabulário e na consciência de nossas crianças e cidadãos a palavra "privilégio". Ela já está entre nós há muito tempo, mas, diante desse arroubo de egoísmo, comecei a pensar se ela já circulou o suficiente. 

Porque não basta falar em direitos e deveres, é preciso também falar sobre essa "vantagem" concedida a apenas alguns de nós. É ela que simplifica a nossa vida e traz a sensação de que há uma reação apocalíptica, muito maior do que pede de fato o momento. Sim, porque talvez para essas pessoas o cenário seja de fato mais simples. Munidas de bons planos de saúde e condições de pagar por cuidados médicos de primeira linha, elas não conseguem considerar o ponto de vista de quem não tem as mesmas posses, a mesma história e a mesma rede de apoio de forma geral. Elas não conseguem enxergar que realidades diferentes geram problemas diferentes. E, assim, simplificam o mundo sob sua ótica própria, tendo a certeza de que o seu pedido, sua vontade e suas necessidades são tão importantes quanto os dos demais.

Caros manifestantes, é fundamental para a vida em sociedade que a gente entenda que o problema de (alguns) outros é, sim, maior e mais importante do que o nosso. É seguindo esse raciocínio que a gente consegue ficar resignado nos momentos em que somos atingidos por leis, regras ou ações que não fazem muito sentido na nossa vida. Aproveitem este momento de pandemia para exercitar essa empatia. Como neste caso estamos falando risco de vida e de colapso do sistema de saúde, no qual, em breve, será preciso escolher quem vive e quem morre (como aconteceu em diversos países do mundo), fica mais simples ser contaminado por esse pensamento de cidadão de bem. 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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