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O novo normal do WhatsApp pode ser o fim da nossa saúde mental

Lia Bock

16/06/2020 04h00

(iStock)

Vocês já experimentaram passar um período inteiro sem olhar as mensagens do zap? Pois tentem. O que deve acontecer com a maioria dos seres humanos depois de quatro horas fora dessa rede é que precisarão de um bom tempo para ler e responder tudo que chegou e foi se acumulando por ali. Talvez quatro horas.

Sim: em tempos de pandemia, quarentena, home office, homeschooling, crise política, fake news e requintes de crueldade, o zap virou o canal oficial de um monte de coisas que vão das compras no mercadinho ao drink com as amigas. É por ele que chegam as dúvidas de como entrar no encontro do Zoom da escola e as promoções imperdíveis das mais diversas marcas que, um dia, anotaram seu telefone.

Tendo isso em vista, se no novo normal essa intensidade não aliviar, estamos perdidos. Adeus foco e adeus saúde mental.

A galera já nem se constrange de mandar áudio de cinco minutos. Os chefes já nem pedem desculpa por escrever fora de hora. As amigas que estão trocando a noite pelo dia não pensam duas vezes antes de mandar o link do polêmico vazamento que mobilizou as redes no meio da madrugada. Isso sem contar os grupos dos pais da classe, onde a gente pisca e pronto: tem 97 mensagens não lidas.

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Pelo amor de Deus: para que eu quero descer! E olha que eu amo o whats e meu recado fixado é "usuária de áudio". Pausa para este adendo: gente, áudio do zap é vida, áudio do zap é amor. É expressão artística, é tom de voz, é lágrima e confidência. Áudio do zap é o telefonema que nunca te pega num momento ruim, porque você só escuta quando pode.

Pois mesmo adorando as funções dessa ferramenta, confesso que o excesso de demandas que entram por ela tem me assustado. Verdade que boa parte são figurinhas e stickers dos quais metade a gente podia ter passado sem, mas, como para fazer esse filtro precisa entrar e olhar, passamos o dia clicando no telefoninho verde, lendo, ouvindo, respondendo, encaminhando. 

O uso está tão intenso que não são poucos os relatos de gente que está com a tela quebrada ou o telefone avariado devido às inevitáveis quedas. Porque não tem segredo: quanto mais usa, mais cai, não é mesmo?

Eu fico pensando como vivem e do que se alimentam os habitantes de países onde o WhatsApp "não pegou". Nossa vida passa tanto por esta ferramenta que não conseguimos nem imaginar como seria viver sem ela. Mas imaginar a vida afogado nela também não me parece um cenário muito bom. Oxalá o novo normal seja caridoso conosco neste tópico.

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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