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Volta às aulas em setembro: Estamos preparados? Claro que não

Lia Bock

25/06/2020 04h00

(iStock)

O governo de São Paulo anunciou ontem que o retorno às aulas presenciais deve acontecer no dia 8 de setembro e com até 35% de sua capacidade total. Existem vários senões: para que esse plano aconteça, precisamos que todas as cidades do estado estejam na fase 3 (amarela) do plano de flexibilização da economia (o Plano São Paulo) por pelo menos 28 dias. E, além do rodízio de alunos que possibilitará a escola atender apenas um terço de seu contingente diariamente, medidas que garantam o distanciamento das crianças e também o uso de máscaras durante todo o período serão obrigatórias.

Para atender às exigências do Estado, muitas escolas terão um rodízio em que cada aluno vai uma única vez ao prédio físico durante a semana. Ou seja, seguiremos com as aulas online e lições pra fazer em casa, só que agora somaremos à nossa rotina uma certa tensão para manter as crianças na linha se protegendo contra a disseminação da covid.

Estamos preparados? Claro que não. Os grupos de WhatsApp dos pais e mães estão em polvorosa. Todo mundo quer saber como e quando a sua escola vai funcionar. E, acreditem, vai ter muita diferença entre uma e outra.

É curioso ver que muitos dos que, num primeiro momento, estavam indignados com a necessidade de fazer "homeschooling" agora estão vociferando contra esse anúncio de retorno na mesma semana em que vimos um recorde de mortes e contágio. A indignação é justa.

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O sentimento de luz no fim do túnel se mistura com o desespero de estar no túnel. A necessidade de tirar as crianças de casa se mistura com o medo de botar a doença pra dentro de nossos lares e, claro, o medo do que esse nosso medo pode fazer com nossos pequenos. 

Até agora, a maioria das crianças foi poupada da neurose do álcool gel. Muitos de nossos filhos privilegiados não precisaram botar o nariz pra fora da porta nos últimos cem dias e, mesmo assim, alguns deles já deixam transparecer uma ansiedade, efeito primário de quem vive um momento de exceção.

Vemos crianças com medo excessivo da morte, crianças que não conseguem levantar da cama de tanto desânimo com a rotina trancada, crianças neuróticas com o lavar das mãos e algumas com pavor de qualquer ser humano que se aproxime.

Por esse motivo, me preocupa muito mais o efeito desse retorno nas crianças do que a possível defasagem que a pandemia vai causar. Vai ser preciso muito equilíbrio e meditação para que consigamos ensinar medidas importantes de proteção –e que na escola fica muito mais na mão deles– sem dar mais responsabilidade do que eles podem carregar ou transferir pra eles nossas ansiedades e pavores. 

Mas esse tipo de questão não está no plano do governo do Estado e é exatamente por isso que, se pudesse escolher, muita gente preferiria ficar no esquema atual de escola à distância até o fim do ano. Pensando do ponto de vista dos responsáveis, escola uma vez por semana não alivia em nada a rotina em casa, só agrega mais uma demanda e muitas preocupações na nossa já ultra-sobrecarregada vida pandêmica. Pensando do ponto de vista das crianças, talvez, sair de casa uma vez por semana, ver os amigos e voltar ao convívio social seja extremamente benéfico para seus cérebros e saúde mental ainda em formação. 

Não tem resposta fácil, principalmente quando vemos que os modelos matemáticos (como este da FGV) e algumas pesquisas contestam a reabertura e pintam um cenário catastrófico no segundo semestre. Uma coisa é certa: entre a cruz e a caldeirinha, entre a gripezinha e os mais de 50 mil mortos, entre o Atila e o Doria, estamos nós e nossos filhos desesperados para sair de casa e, ao mesmo tempo, desesperados com a possibilidade de sair de casa. 

A volta da escola de forma parcial e ainda com taxa de contágio crescente vai exigir muita paciência, boa vontade, respeito e senso ético de todos nós. Vai exigir também que entendamos a dimensão de tudo que está acontecendo e que, talvez, neste momento, o aprendizado não seja aquele que está nas apostilas ou nos livros. E, sim, isso também importa.

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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