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Caso Madeleine e o medo de que nossos filhos desapareçam

Lia Bock

23/06/2020 04h00

Madeleine McCann (PA MEDIA)

Existem dois tipos de gente: aqueles que leem e assistem a cada detalhe sobre o desaparecimento da menina britânica em Portugal, em 2007, e aqueles que evitam ter qualquer contato com as notícias que envolvem o caso. Mas uma coisa esses dois grupos têm em comum: o pânico de que seus filhos (futuros filhos, sobrinhos, afilhados ou netos) desapareçam.

O primeiro grupo quer todos os detalhes com o intuito de se precaver, e o segundo não quer pensar sobre o assunto para não lidar com o fato de que (sim) somos responsáveis por esses pequenos seres humanos. É fundamental lembrar que nenhum dos dois está livre do problema. E a ideia aqui não é culpabilizar os pais, mas, sim, falar do medo que habita todos nós.

Quando Madeleine McCann desapareceu no dia 3 de maio de 2007 e a notícia correu o mundo, pais, mães e responsáveis engoliram seco e a dor solidária se misturou ao sentimento tão egoísta quanto humano de alívio: "ainda bem que não foi comigo". Daquele dia em diante, quem costumava deixar crianças circularem sozinhas por hotéis, shoppings e afins passou a pensar cem vezes antes de repetir o ato.

Todos nós julgamos os pais da menina, todos nós tivemos pesadelo com o assunto e todos nós tivemos aguçado o tal medo do desaparecimento. O sentimento de "eu não quero ser essa família" nos invadiu e o receio instintivo de perder um filho ganhou uma materialidade indigesta e globalizada.  

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Ninguém nunca esqueceu Madeleine. Até porque o caso não foi encerrado, a imprensa nunca deixou de cobrir o assunto e existe um seriado documental de oito de episódios (que poderia ser um filme de duas horas) que não nos deixam dormir em paz. 

Onde estará a garota que hoje teria 17 anos? Estaria ela viva? Quem a sequestrou? E como alguém tira uma criança de um hotel sem ser visto? 

Pois agora, 13 anos depois, a polícia parece estar perto da resposta definitiva, e Madeleine, com sua carinha fofa e sua manchinha no olho direito, volta a nos cutucar nas homes dos principais portais. O assunto voltou para as rodinhas, agora encontros no Zoom, e o medo e suas providências bizarras nos rondam novamente.

    Engravidei do meu primeiro filho um ano depois do desaparecimento de Maddie. E, ainda com ele na barriga, eu me pegava pensando nas situações mais propícias para o sequestro de uma criança. Fiz o pai dele jurar que não o perderia de vista na maternidade nem por um minuto.

    Quatro anos depois, num piscar, ele se desprendeu da minha mão e sumiu pelos corredores de um hipermercado. Primeiro, eu quase desmaiei, depois pensei que cada minuto era valioso e saí gritando para constranger um possível sequestrador de aproveitar a deixa e levar a criança.

    Soei absolutamente louca ao berrar que o menino de cabelo preto e casaco branco era meu filho e se outra pessoa estivesse com ele era sequestro. Pedi desculpas ao rapaz que o trouxe até mim longos dez minutos depois e ouvi de volta um: "Preocupa não, eu faria a mesma coisa". 

    Foi esse mesmo medo que fez com que meu marido colocasse nossas duas bebezinhas, então com cinco meses e em suas cadeirinhas do carro, sob um temporal para não deixar uma delas dentro do táxi enquanto levava a outra no guarda-chuva até o toldo de casa, a parcos três metros. "E se o taxista arrancasse com o carro levando a bebê?". Uma gripe com certeza seria melhor do que isso.

    Olhando de fora, pode parecer paranoia, mas Madeleine está entre nós, assim como milhares de outras crianças que desapareceram em situações absolutamente rotineiras. Estima-se que cerca de 50 mil crianças desaparecem por ano no Brasil, isso dá uma média de oito casos por hora. Não é um medo à toa. Eu diria que é quase um instinto de sobrevivência. 

    É o frio na espinha que nos faz apertar forte o bracinho em público mesmo quando a criança pede pra soltar. É o medo de ser uma dessas mães que buscam seus filhos por anos sem ter uma resposta que nos coloca nesse lugar muitas vezes difícil de ser entendido. Não temos como evitar, mas queremos loucamente não entrar para essa estatística. 

    Sabemos que, na maioria das vezes que as crianças desaparecem, elas não estão com os pais. Sabemos que a responsabilidade pelo desaparecimento não é de quem teve seu filho sequestrado, mas o medo é o que mexe conosco. 

    Enterrar um filho é uma das dores mais agudas que podemos ter, mas procurar por ele incessantemente sem saber se está vivo é muito pior. É aqui que a paranoia e a precaução se encontram na difícil missão de não surtar.

    Errata: diferentemente do publicado anteriormente, Madeleine é britânica.

    ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

    Sobre a autora

    Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

    Sobre o blog

    Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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