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Lia Bock

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Meu guru abusador: João de Deus é mais um da fila

Lia Bock

10/12/2018 14h34

(iStock)

Na semana passada o programa de Pedro Bial trouxe entrevistas com mulheres que contaram histórias de abusos por parte do guru espiritual João de Deus, considerado responsável pela cura de milhares de pessoas através de técnicas, como as "cirurgias espirituais". Depois das primeiras denúncias, outras várias começaram a pipocar. Porque é assim mesmo, muitas mulheres não têm coragem de acusar um guru de abuso como medo de serem desacreditadas. Mas quando a primeira denúncia aparece, elas tomam fôlego em colocam a boca no mundo.

Muita gente se chocou, já que João de Deus "operou" e atendeu personalidades, poderosos e políticos nacionais e internacionais. Mas muita gente, como eu, fez cara de "mais um guru abusador". Não que desconfiassem de João especificamente, mas a verdade é que temos visto cada vez mais gurus despencarem do altar sob denúncias gravíssimas.

A ioga é uma grande fonte de mestres abusadores. A relação com o tantra e com a energia sexual parece ser um facilitador para que os gurus cruzem a linha do consenso. Bikram Choudhury, indiano que atuava nos Estados Unidos, foi das salas lotadas e dos alunos famosos às páginas policiais acusado de estupro. O americano John Friend seguiu o mesmo caminho. Aqui no Brasil, um dos precursores da ioga, Cristovão de Oliveira, também foi acusado de abuso durante seções de massagem. Sem falar, é claro, no "mestre" De Rose, famoso por cooptar jovens para sua "egrégora" e fazer fortuna em cima do abuso econômico de suas franquiadas.

No grupo dos religiosos temos, além de João de Deus, Prem Baba, recentemente acusado de se aproveitar da vulnerabilidade e crença de seguidoras para fazer sexo. Podemos incluir aqui também o Osho, cujo discurso potente seduziu milhares de pessoas e as levou a coisas como tentativa de homicídio, tudo muito bem explicado no seriado documental "Wild Wild Country", da Netflix.

Sim, a incidência dos gurus sobre as pessoas é forte. Capaz de coisas inacreditáveis. Podem levar ao caminho da luz (dizem) e também à mais profunda das sombras. E é por isso que digo: eu tenho medo de mestres e gurus. Tenho medo de suas incidências sobre pessoas vulneráveis (capazes de acreditar, por exemplo, que matar alguém é necessário) e também de suas palavras suaves que entorpecem e convencem de que penetração sexual durante uma massagem vai liberar alguns pontos travados.

E daí a gente se pergunta: mas as pessoas não percebem o absurdo na hora? Não reagem? Por que não fogem? Elas não conseguem. Porque o eixo da ação dos gurus é justamente esse, ele tem a verdade, ele tem o poder da palavra, ele sabe o melhor caminho e já vem convencendo pessoas disso há muito tempo. Não acho exagero dizer que alguém que chama fulano de mestre e se curva frente a absurdos caminhos oferecidos não está exatamente em sua plena faculdade mental.

Gurus são como drogas. Entorpecem.

Eu colocaria nesta lista de gurus abusadores o médico Roger Abdelmassih. Por muitos anos Roger foi o considerado o guru da fertilização no Brasil. Fui repórter de saúde na época em que ele estava no auge e me lembro das mulheres dizendo que ele "fazia milagre". E Roger sempre gostou desse altar. Subiu nele e dali fez absurdos, sempre sob o manto de "mestre", sempre escondido atrás de seu sucesso. Ninguém questionava, ninguém denunciava porque ele tinha poder. Porque ele era médico de pessoas famosas, porque ele estava na televisão e nos jornais. Porque ele era o mestre.

Mestres geralmente fazem questão de aparecer e se refastelam com os adjetivos mágicos.

E é disso que se alimentam. Uma mistura de fama, demagogia e poder que entorpece a eles mesmos, revelando o lado cruel e abusivo (vejam só) muitas vezes necessário para que alguém alcance este posto.

Desconfie dos gurus e mestres sempre. Porque a vaidade necessária para que uma pessoa aceite este posto é também o veneno que poderá conduzi-lo aos desmandos e abusos comuns a quem está no pedestal.

Ter alguém a quem seguir pode ser muito bom quando estamos meio desnorteados e pode ser saudável. O estranho é quando centenas, milhares, de pessoas resolvem todas seguir um único ser humano. Assim faz-se o mestre e também o abismo inerente ao posto.

 

 

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.