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O que o relato de Mia Khalifa nos ensina sobre o sexo e sua indústria

Lia Bock

02/07/2020 04h00

(iStock)

Nas últimas semanas, vimos relatos de duas ex-atrizes pornôs falando sobre os traumas dos tempos em que trabalharam na indústria. Mia Khalifa foi manchete por causa de seus desabafos nas redes sociais que visam expurgar as péssimas lembranças dos poucos meses de trabalho como atriz pornô. E a brasileira Vanessa Danieli chamou a atenção com um texto em que comemora três anos e seis meses fora da indústria de filmes adultos. Ali, ela também conclamava outras atrizes a contar os "podres do pornô". 

As duas histórias são uma ótima oportunidade para falarmos dos efeitos nocivos da indústria tradicional do sexo na nossa sociedade. E digo tradicional porque filmes pornôs em si não são nocivos –já temos entre nós diversos exemplos que são respeitosos e deixam pra trás a velha forma de retratar relações sexuais.

O pornô tradicional, e que chamo aqui sem medo de antigo, é aquele onde Mia e Vanessa se meteram. Uma indústria extremamente machista, que desrespeita e viola as mulheres. Uma indústria criada e gerida por homens que pensam a mulher como objeto e para os quais sexo bom é sexo em que a mulher satisfaz o homem. Prazer feminino? Respeito aos desejos delas? Ninguém viu. 

Em resumo, estamos falando de uma indústria que maltrata (estupra e violenta) suas profissionais e mostra o sexo de uma forma deturpada formando, assim, gerações de pessoas que pensam que violência faz parte do sexo, entre outras deturpações bizarras. Sim porque, como bem disse Cindy Gallop neste TED, numa sociedade que trata o sexo como tabu e proíbe orientação sexual nas escolas, filme pornô vira cartilha.

Não canso de dar o exemplo de um fetiche nojento chamado "facefuck", coisa que muitos de nós jamais conheceríamos se não fosse a insistência do pornô tradicional em jogar na nossa cara. A indústria insiste e, de repente, tem uma galera achando legal forçar o pênis goela adentro, muitas vezes fazendo a mulher vomitar. Não, não é normal e nem legal. Como vimos no documentário "Hot Girls Wanted", da Netflix, é um fetiche que flerta com a desumanidade e viola de forma aguda as mulheres. 

Esse é um dos exemplos que mostram como a indústria tradicional do sexo é tóxica, não só para suas trabalhadoras, mas para toda a sociedade. E não estou de forma alguma colocando aqui uma posição moralista sobre o pornô. O sexo faz parte de nossas vidas, e precisamos não só fazer, como falar sobre ele e também assistir.

Existem diversas produtoras dedicadas a fazer um retrato mais realista do sexo. E existem filmes tesudos e extremamente sensuais que não violam ninguém. O argentino "Filhas do Fogo" é um deles. Quebrando todos os padrões heteronormativos que regem o gênero, o longa foi premiado em festivais importantes mundo afora, como Bafici 2018, San Sebastián Film Festival, Festival de Roterdã, Festival do Rio e Festival Mix Brasil 2018.

O média-metragem "Landlocked", da diretora brasileira Lívia Cheibub, é outro exemplo de sexo explícito que dá tesão sem violar ninguém. E é um trecho do texto de Lívia para o site Hysteria que nos mostra como o pornô pode não só ser respeitoso como ser de fato educativo: "O pornô pode, inclusive, ser uma ferramenta para que as pessoas aprendam as regras do consentimento e para que a conversa sobre sexo se estenda depois do 'sim'. É preciso falar sobre a capacidade e o direito da mulher em sentir prazer –com ou sem um pau envolvido". 

Porque, se aprendemos o que é facefuck e a louvar as novinhas com a indústria tradicional do sexo, podemos, sim, usar esta ferramenta para ensinar que pessoas gordas também gozam, mulheres também têm prazer e, claro, que é possível fazer amor diante das câmeras. Pra quem não conhece, vale a visita na rede social de sexo Make love not porn, onde casais reais de todas as idades, corpos e orientações sexuais ligam suas câmeras e jogam no mundo o sexo que deveria ser nossa meta de vida: livre, amoroso e, claro, tesudo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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