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O que o aumento na procura por divórcio durante a pandemia diz sobre nós

Lia Bock

18/06/2020 04h00

(iStock)

Verdade seja dita, a quarentena não trouxe nenhum problema novo para os casais, mas acentuou discórdias, desavenças e brigas que já eram tradicionais dentro de casa. Só que agora o desamor ganhou luz, a falta de sintonia foi amplificada e até pequenas queixas, como a roupa jogada pela casa ou o desleixo com a arrumação, ganharam corpo e ficaram impossíveis de engolir.

Não é à toa que algumas pessoas têm brincado com a expressão: "se a quarentena não implodiu, nada mais separa". Sabemos que isso não é verdade quando estamos falando em casamento, mas vale a piada. Porque ficar isolado com a família aumenta a intensidade dos problemas existentes. 

Fato é que a busca por escritórios especializados em divórcio cresceu 177% se comparada com o mesmo período do ano anterior. E tem dado mais impactante: segundo um levantamento do Google, a pesquisa por "divórcio online gratuito" cresceu quase 10 mil % (sim, 10 mil porcento). 

Logo vemos que a turma quer mesmo se separar –e é agora, é já e é aqui mesmo de dentro de casa, durante a pandemia e sem grana pro advogado. Seria cômico se fosse um seriado da Netflix escrito pela Phoebe Waller-Bridge. Mas, no nosso caso, é só triste mesmo. 

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O pico da procura por divórcio num momento de tanta incerteza e no qual precisamos mais do que nunca uns dos outros (psicológica e financeiramente) mostra o quanto nossos casamentos estão sendo empurrados com a barriga e o quanto negligenciamos conversas mais profundas. Mostra que tem muita gente esquecendo de se perguntar: quem somos nós e pra onde vamos?

Sempre digo que a vida a dois é maravilhosa e acredito nisso de verdade. Mas não é qualquer vida a dois. E, para deixar o casamento gostoso, transparente e sólido, não basta um buquê de flores aqui e uma trepadinha ali. Manter um casamento feliz dá trabalho.

Todavia, manter um casamento infeliz dá muito mais dor de cabeça. E é isso que a quarentena escancarou. Casamento infeliz só serve se a gente passa a maior parte do tempo fora de casa, longe do outro e fingindo que há muitas coisas mais importantes pra fazer do que olhar para o que chamamos de nós com carinho e sinceridade. 

Muita gente acha que conversar demais quebra o clima e não são poucos os casais que realmente não têm tempo pra isso. Rotina de trabalho puxada, horários que não batem, demanda dos filhos, dos pets, dos pais. Mas, assim como a gente arruma tempo pra encontrar a pessoa quando está apaixonado, é preciso arrumar espaço para conversas que coloquem os problemas na mesa. 

E toda conversa leva à separação? Claro que não. A meta é justamente o contrário. A ideia de colocar nossos incômodos, as queixas e as insatisfações é resolver questões ao invés de empurrar a coisa pra baixo do tapete, lugar onde elas crescem, emboloram e ganham contornos terríveis. 

E, vejam, não estou dizendo que é pra ficar botando na mesa do jantar cada coisinha que a gente sente. As coisas precisam ser digeridas antes de serem ditas, mas, constatada a reincidência de sentimentos ruins, é preciso falar. 

E falar não é vociferar. Gosto de pensar os problemas de casal como códigos que precisam ser traduzidos pro outro. Porque o problema é nosso, mas a queixa é de um dos dois. 

Parece trabalhoso demais? Então talvez o amor dessa dupla tenha acabado mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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