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Tomara que você não seja um cidadão de bem

Lia Bock

18/07/2019 04h04

(iStock)

Preciso começar este texto dizendo: tomara que você não seja um "cidadão de bem". Isso porque por trás desse conceito aparentemente inofensivo e elogioso mora uma carga moral julgatória e uma falsidade desconcertante.

Não dá pra saber quando o terno foi criado, mas sabemos onde ele reina. Programas (ditos) jornalísticos com forte cunho policialesco popularizaram o termo sempre colocando bandidos de um lado e cidadãos de bem do outro. Policiais que dão entrevistas também usam o termo nesta mesma oposição. E assim, foi se instituindo que o cidadão de bem (neste caso) parece ser aquele que faz tudo certinho, mas (me perdoem) se fode no final. Péssima ideia.

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Mas saindo da televisão, na ânsia por serem "boas", as pessoas se apegaram ao termo como sendo o título de gente honesta. E no inconsciente geral, o cidadão de bem virou aquele que paga seus impostos, cuida da família e tem um trabalho lícito.

O problema é que isso é raso demais e não basta para botar alguém no pedestal da honestidade. É preciso ir um pouco mais fundo para ganhar estrelinha de bom cidadão.

Não adianta pagar os impostos e barganhar o salário já diminuto da faxineira. Não adianta achar que cuida da família, e proibir a mulher de usar batom vermelho ou expulsar o filho gay de casa. Não adianta ter um trabalho lícito e praticar assédio moral com os subordinados.

Porque o que vemos por aí é um monte de cidadão de bem que de bons não tem (quase) nada. Dá até pra dizer que usam o adjetivo pra esconder a podridão da desonestidade. Sim, acho mesmo que quem se diz cidadão de bem está mentindo. E é por isso que espero imensamente que ninguém aqui se autointitule assim.

Até porque quem fica propagandeando muito suas qualidades é um pouco suspeito. Pessoas honestas e (de fato) de bem levam a vida sem recorrer ao excesso de marketing pessoal.

Claro que um pouco de propaganda de si nas redes sociais é aceitável, inclusive quando estamos buscando por um emprego, mas quem no dia a dia fica reafirmando suas "qualidades" cai na vala das suspeição. Quem é de bem de verdade não precisa ficar dizendo isso. Basta viver e agir e o mundo tirará suas conclusões. Mas reparem que quem tem um lado podre, um lado B a esconder tem a enorme necessidade de reafirmar seu lado positivo.

Então, muito cuidado com os ditos cidadãos de bem. De duas uma, ou eles se fodem no final ou fodem você, no melhor estilo lobo em pele de cordeiro.

 

 

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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