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Cadê a culpa materna que estava aqui? A pandemia comeu

Lia Bock

14/04/2020 04h00

Foto: Getty Images

Desde que me tornei mãe, em 2008, a culpa me acompanha: culpa por trabalhar muito e ficar pouco em casa e culpa por não ter trabalho e estar em casa demais. Culpa por regular o doce e culpa por liberar o doce. Culpa por deixar que a TV seja ligada a qualquer hora e culpa por colocar regras muito restritivas para as telas. Culpa por não ter dado uma consequência do tamanho que a birra pedia e culpa por ter dado uma consequência dura demais.

De um lado ou de outro, nesses 11 anos e quatro filhos de maternidade a culpa esteve comigo. E, vejam, eu detesto sentir culpa. Acho realmente que esse sentimento não leva a lugar nenhum. Mas como ela vem mesmo assim, foram inúmeras as vezes que tive que me desconstruir e acionar as bases para me livrar dela.

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Mas agora a culpa sumiu. Tomo as mesmas atitudes extremadas ou impensadas ou pensadas demais de sempre e… não sinto nada! É uma maravilha. Nas poucas vezes que ela se aproxima sorrateira, rapidamente a cabeça lembra que estamos em isolamento, pessoas estão morrendo, o (des)governo está batendo cabeça, somos privilegiados e afins e a culpa se desfaz sem muito esforço. Uma loucura. É como se a pandemia fosse um escudo anticulpa materna.

Pra quem acha que a culpa "faz parte" da maternidade, uma pausa. Vale lembrar que sentir culpa é reconhecer nossos erros. E não é possível consertar nada com o mero reconhecimento, certo? Ainda está para surgir a pesquisa que vai provar que a vida melhora com o aumento da culpa. Por ora, o que temos é essa culpa vazia e que não leva a lugar nenhum.

Alguns especialistas fazem questão de diferenciar culpa de responsabilidade. E isso é fundamental. Enquanto a primeira só constata uma questão e nos fecha num pensamento egoísta do que fizemos, a outra faz menção a se retratar, a fazer diferente, mudar.  Pois bem: é mais ou menos por isso que eu resisto em sentir culpa, acho inútil. 

É uma pena seja necessário algo da magnitude de uma pandemia para me livrar desse sentimento que abomino, mas talvez esteja aqui o segredo para uma maternidade mais responsável e menos sofredora. Relativizar e repensar. Não que devamos sempre buscar uma justificativa para nossos atos, às vezes eles são ruins mesmo e ponto. Mas enraizar nossas atitudes pode nos levar além. Por que agi dessa maneira? O que poderia ter feito de diferente? Qual repetição nos meus atos está me irritando? Fazer perguntas que nos ajudem a justificar nossos atos ou a abandoná-los de vez.

Explico: durante a pandemia, temos justificativa para nossos atos. Tipo: eu botei as cadeirinhas do carro na frente da TV pra facilitar que duas menininhas que não têm nem 2 anos assistam Shaum, o Carneiro. Culpa? Zero. Porque a casa  – o jantar, a roupa na máquina, a louça pra lavar, a lição dos mais velhos, o banho – precisa que elas fiquem um tempo ali, vidradas naquela tela. Ação controversa, mas mais que justificada. E, portanto, uma atitude imune à culpa. 

Claro que em situações extremas fica bem mais simples fazer esse raciocínio, mas (prometo) me esforçar para trazer esse modus operandi para a minha maternidade quando o pandemônio acabar. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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