Lia Bock http://liabock.blogosfera.uol.com.br Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo. Tue, 18 Jun 2019 14:34:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Atualizando a Festa Junina: Noivinha? Menino de um lado, menina do outro? http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/atualizando-a-festa-junina-noivinha-menino-de-um-lado-menina-do-outro/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/atualizando-a-festa-junina-noivinha-menino-de-um-lado-menina-do-outro/#respond Tue, 18 Jun 2019 07:33:03 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1518

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É tempo de quentão, vinho quente, canjica, pescaria, prenda e quadrilha. Festa Junina é sempre divertido. Mas todas as vezes que me deparo no Instagram com quadrilhas que têm meninas de um lado e meninos de outro me sobe um frio na espinha.

Não que eu negue as tradições, mas acho necessário atualizarmos alguns conceitos. É isso que fará do mundo um lugar melhor pra se viver.

Veja também:

Por isso, quando uma escola martela na cabeça de crianças pequenas que menina dança com menino (e ponto), reforça um estereótipo que estamos (a duras penas) tentando deixar pra trás.

Tem muita escola que já superou isso faz tempo. Criança dança com criança, afinal, a diversão é o que importa. “Mas e o narrador, como ele vai fazer?” Fiquem tranquilos, ele se vira para indicar que uma turma vai pra um lado e outra pro outro. “Os da direita cumprimentam os da esquerda!” ou “o lado da prof. Juliana reverencia o lado da prof. Tatiana”. O que não pode é dizer que menino faz isso e menina faz aquilo. Doutrinação gay? Não, queridos, apenas que esse tipo de divisão coloca na cabeça das crianças questões que não têm nada a ver com a festa e muitas vezes nem com a idade deles.

Mas como este blog não é pra criança, falemos nós dessas questões: Doa a quem doer, o mundo mudou. Menina joga futebol, menino brinca de boneca, mulher casa com mulher e homem com homem. Qualquer coisa que reforce o oposto disso é luta inglória de quem não quer ver a beleza da mudança. Mesmo durante as brincadeiras de Festa Junina. Porque sim: é nos detalhes que a gente avança, cresce, aprende.

Mas a gente não vai falar nada disso pra eles, que são crianças. Assim como também não vai falar que o par da Festa Junina simula um casal. Pense no conceito dupla, facilita bastante. Criança não namora. Criança não faz casal, faz dupla.

Mesmo assim, você está achando esse discurso femininja demais? Então, senta aqui: pergunta pras suas amigas negras quando elas foram as tais noivinhas na Festa Junina da escola nos idos de 1990. Não faltam relatos de mulheres negras que nunca foram colocadas nesse papel porque… por que mesmo? Ah, sim, porque no ranço da Festa Junina, a noiva era sempre “a mais bonita” e, ao que parece, este lugar não pertencia às negras.

Isso é muito tapa na cara, vai? Vergonha da humanidade. E vejam, esse atos racistas (vamos dar o nome correto, mesmo que doa) mexeram com a autoestima de muita mulher maravilhosa por aí. Mas e o que isso tem a ver com a dancinha das duplas, gente? Isso tem a ver com pequenas (grandes?) atitudes que parecem inócuas mas acabam torcendo a cabeça das crianças. Isso mostra como uma simples Festa Junina molda nossos pequenos da maneira mais cruel.

Criança não tem que querer ser a mais linda e nem ser obrigada a dançar com uma pessoa com quem não tem intimidade, porque é do sexo oposto.

E já que estou problematizando, deixa eu falar mais uma coisinha: não acho nada bacana vestir menina de noiva, ok? Aliás, eu acho é bem bizarro. Porque a gente não quer criar mulheres pra casar, certo? Queremos criar mulheres para presidir as multinacionais e talvez o país. E essa coisa de desejar o vestidinho de noiva desde a tenra idade é a mais pura doutrinação ideológica! Ideologia das esposas-recatadas-do-lar. Bora focar nas multinacionais, pessoal!

Mas voltando às vestes: esses vestidos, assim como aqueles cheios de saiotes que a gente acha fofo nas crianças, podem ser lindos na foto pra vovó postar nas redes, mas pra brincar, correr e dançar quadrilha (isso sim, coisa de criança!) são terríveis.

Na dúvida, lembre sempre: a liberdade é um santo remédio.

– Olha a cobra!
– É mentira!!

 

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Vários motivos para dar um vibrador pra sua namorada http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/13/varios-motivos-para-dar-um-vibrador-de-dia-dos-namorados/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/13/varios-motivos-para-dar-um-vibrador-de-dia-dos-namorados/#respond Thu, 13 Jun 2019 07:07:35 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1503

(Foto: iStock)

Este me parece um bom ano para cravarmos uma mudança na nossa cultura sexual. E ela se refere aos dildos, consolos e todos o tipo de vibradores.

Antigamente considerados os melhores amigos das mulheres solteiras, eles eram renegados ao cantinho da gaveta mais escondida. Já foram também comprados e usados em segredo e considerados concorrentes dos homens.

Veja também:

Tudo coisa do passado, né, amores?

Hoje tem vibrador com design e a preço de joia –alguns são feitos até para ficarem expostos –e há também aparelhinhos tão pequenos quanto amistosos, bons para morar na mesinha ao lado da cama de casais bem resolvidos.

E, vejam, não é uma questão de “precisar” do vibrador. É uma questão de “querer”, de aproveitar o que a indústria do sexo tem a nos oferecer para uma vida mais prazerosa e diversa.

Usar o vibrador a dois é a nova cinta-liga, por muito tempo considerada uma jeitinho de apimentar (como detesto essa expressão) a relação.

Pra você que está com cara de “fala mais sobre esse assunto”, explico: tem casal que não costuma gozar junto, por exemplo. Diferença de ritmos e tal. É normal. Mas que é gostosinho chegar junto ao ápice, não dá pra negar. Pois os pequenos estimuladores de clitóris podem fazer isso por vocês. Numa posição em que todo mundo se encaixe e conecte, ele auxilia o casal a casar os ritmos durante a penetração. O anel peniano com vibrador também pode fazer isso. Esse é aquele anel de silicone que se coloca na base do pinto e que tem um vibradorzinho que fica bem em contato com o clitóris.

Outra coisa divertida é usar o vibrador na parceira e assistir a evolução do seu prazer. Além de gostoso, dá pra aprender um bocado observando.

E, veja, não estamos falando de consolos com formato de pinto e veias realistas aparentes. Isso é muito anos 1980. A grande maioria dos vibras é colorida e hightech. Existe um, por exemplo, que é um sugador de clitóris. Sim: ele faz uma pequena sucção, puxando o órgão pra fora. Dá muito prazer e lembra que os clitóris (no geral) são amigos da intensidade.

Pra aquelas mulheres que não gozam em todas as relações (ou não gozam em nenhuma) os vibradores são uma dádiva e tornam os orgasmos algo totalmente vinculado à transa. Se quiser, claro.

Não perca tempo achando que “isso é moderno demais pra mim”. O mundo mudou e mudar junto com ele não é só uma questão de evolução, é uma questão de se abrir para o prazer.

Pesquise, leia, pergunte. Compre pela internet se estiver tímida (o) com a atuação num sexshop. Experimente, goze e curta a vida a dois em toda sua potência.

 

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O que leva um pai a matar o namorado da filha? http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/10/o-que-leva-um-pai-a-matar-o-namorado-da-filha/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/10/o-que-leva-um-pai-a-matar-o-namorado-da-filha/#respond Mon, 10 Jun 2019 17:23:43 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1488

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O que leva um pai a matar o namorado da filha e os pais dele? Alguns vão dizer que o “cara é maluco” ou que “perdeu a cabeça”. Mas essas respostas são simplistas demais. Dizer que a culpa foi do “ciúme” que o pai tinha da filha, como prega a polícia, também me parece muito reducionista.

E claro que até Paulo Cupertino Matias, o pai, ser pego e dar a sua versão, não podemos cravar nada.

Veja também:

Mas o que precisamos fazer frente a este brutal assassinato de Rafael Miguel e de seus pais é olhar o todo. E o que vemos no entorno deste acontecimento é o cultivo do ódio, a desistência do diálogo, o enaltecimento das armas e um apego à (desgastada) submissão feminina — pelo menos. Cena totalmente propícia ao empoderamento de quem não tem as ideias no lugar.

Porque pode até ser que você, leitor atento, diga que sabe diferenciar o certo do errado e que não é porque apoia o armamento da população ou lê sobre as investidas de se colocar a mulher de volta sob as asas dos maridos e pais que vai botar isso em prática dentro de casa; sair apontando a arma pra qualquer um ou começar a ditar o que esposas e filhas devem fazer.

Talvez você não seja como os outros. Mas lembre, nem todo mundo tem essa clareza e muita gente está, sim, fazendo uma leitura extremada do que vê. É o que eu chamo de empoderamento dos deturpados.

É essa leitura que cria, na cabeça de muita gente, um cenário onde matar por ciúme pareça ok. Mesmo que pense isso por apenas alguns instantes, bem sabemos que pode ser tarde demais. Bastam segundos para disparar uma arma e matar uma pessoa. Neste caso, foram três pessoas.

Quando a gente lança no ar a ideia de que ter uma arma nos deixa seguros, lança junto um enorme risco de essas armas serem usadas em momentos de ódio, cabeça quente, bebedeira, abstinência de drogas, enlouquecimento momentâneo e mais um monte de outras coisas que não tem nada a ver com legítima defesa. Glamurizar o revólver e armar a população coloca este risco dentro de nossas casas, de nossas relações, de nossas vidas.

O ódio é uma característica dos seres humanos, o tal “perder a cabeça” também. Tudo que reforça este nosso lado ou nos dá munição para acreditar que ele merece ser ouvido nos manda de volta para a lógica egoísta das terras sem lei, onde vale a máxima do “eu acredito, então eu posso”.

Só que isso, somado a uma arma, nos conduz (por um atalho rápido) a tragédias como essa.

É preciso voltar para aquela lógica em que temos medo de qualquer pessoa armada. Porque ninguém está a salvo de perder a cabeça porque tem uma arma na mão. Ao contrário. Torna este momento de perda da sanidade em algo fatal.

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Assistir aos jogos da seleção feminina de futebol é um ato político http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/assistir-aos-jogos-da-selecao-feminina-de-futebol-e-um-ato-politico/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/assistir-aos-jogos-da-selecao-feminina-de-futebol-e-um-ato-politico/#respond Thu, 06 Jun 2019 14:43:40 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1477

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Se a prática de assistir aos jogos da seleção masculina de futebol pode ser analisada como uma alienação dos reais problemas do país, ligar a TV no domingo às 10h30 da manhã para ver as meninas representarem o Brasil na França é um ato que representa o exato oposto desse cenário. 

Deixar de lado a (tradicional) preguiça de acompanhar os jogos femininos e botar a vuvuzela na janela é uma atitude política no que diz respeito à luta pela igualdade de gênero, no esporte e fora dele.

Este é o primeiro ano em que os jogos serão transmitidos ao vivo pela TV aberta. Band e Globo chamaram pra si essa responsa e parecem ter entrado de cabeça no que deve ser a virada de anos de diminuição e exclusão.

Não é segredo pra ninguém que mesmo tendo seis títulos de melhor do mundo, Marta não tem o tratamento e nem o salário de jogadores que, muitas vezes, nunca trouxeram um premiozinho pra casa.

Também vale lembrar que entre 1941 e 1983 o esporte foi proibido para mulheres. Foram longos 41 anos de escanteamento com justificativa torpe. O Decreto-Lei 3199 imposto durante o governo de Getúlio Vargas trazia o artigo 54, que dizia que “as mulheres estavam proibidas de praticar qualquer esporte que fosse contra sua natureza”. Não especificava as modalidades, mas era óbvio que o futebol, já muito popular na época, estava entre eles. Isso porque modalidades consideradas violentas ou de impacto poderiam causar infertilidade e, na visão daquela sociedade patriarcal, a mulher servia mesmo era pra reproduzir.

Claro que quando o esporte voltou à luz da permissão social as mulheres tinham 41 anos de atraso e, vejam, não foi porque um decreto dizia que a partir de então elas poderiam jogar que todo mundo aceitou que suas filhas treinassem. A primeira, a segunda, talvez até a terceira geração de meninas que queriam ser boleiras foram duramente reprimidas. Muitas tiveram que romper com a família para seguir o sonho. Outras foram vetadas nas escolinhas onde só tinha menino.

E é claro que neste cenário não se valorizavam as jogadoras profissionais. Por lei, elas podiam trabalhar, mas a sociedade não via com bons olhos, a televisão não transmitia e as marcas não patrocinavam. Ou seja, era uma proibição velada.

É por isso que 2019 é um ano tão importante. Projetos de marcas já tradicionais patrocinadoras do futebol masculino estão colocando dinheiro e energia nas categorias de base. E a TV vai transmitir com pompa.

E voltando ao motivo deste texto: a nossa parte, como espectadores e país do futebol, é ligar a televisão, vibrar, fazer barulho, twittar e comentar nas mesas de bar. É dar a importância que nunca demos e, daqui em diante, fazer essa reparação histórica.

Aprender quem são as jogadoras e curtir o estilo de jogo feminino vai ser um exercício (importante) e terá um grande impacto não só no que diz respeito ao futebol feminino, mas à igualdade de gênero tão maltratada por nossos conterrâneos.

Não somos chocadeiras e nem temos habilidade nata para cuidar da casa e da família. Fomos treinadas pra isso e agora estamos exercitando outras habilidades. Jogamos bola, lideramos equipes, entedemos de economia e tecnologia. Somos cientistas, árbitras, alterofilistas, boxeadoras e o que mais desejarmos.

Basta dedicação, investimento, aceitação e respeito social. A partir de amanhã (7 de junho) e até a final (7 de julho) ligue a TV, assista aos jogos do Brasil e também aos outros e repita o mantra: lugar de mulher é onde ela quiser.

 

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O caso Neymar e a explosiva combinação entre dinheiro, futebol e mulheres http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/03/o-caso-neymar-e-a-explosiva-combinacao-entre-dinheiro-futebol-e-mulheres/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/06/03/o-caso-neymar-e-a-explosiva-combinacao-entre-dinheiro-futebol-e-mulheres/#respond Mon, 03 Jun 2019 14:07:29 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1466

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Depois que tivemos acesso à acusação e às conversas íntimas,  estamos todos atentos ao desfecho do caso Neymar. Estupro é crime hediondo e dá cadeia. Falsa acusação de estupro além de ser grave, enfraquece toda uma luta para que as mulheres denunciem seus agressores. E por último, divulgação de conversa e fotos íntimas sem consentimento já é tipificado como crime no Brasil. Mas eu queria dar alguns passos atrás e aproveitar essa história para falar da explosiva combinação entre futebol, dinheiro (muito dinheiro) e mulheres.

Nitidamente a história de Neymar passa por essa combinação que muitas vezes já foi desastrosa. E até mortífera. Não esqueçamos que o goleiro Bruno foi condenado pelo assassinato de Eliza Samudio em circunstâncias que traziam essa tríade envolvendo boleiros, grana e mulheres. Cristiano Ronaldo também foi acusado de estupro recentemente. Mas existem outros casos bem menos graves, que trazem à tona as mesmas questões. Como o da modelo que entrevistei há alguns anos, que recebeu dezenas de presentes caros de um jogador interessado nela, e também o das chamadas Maria chuteiras, que orbitam o universo dos jogadores interessadas na mesma rápida ascensão que os fez ricos.

Cada história à sua maneira nos leva a um mesmo ponto: a posição de submissão da mulher diante desses (enricados, famosos e de origem humilde) rapazes. Podemos até dizer que elas são interesseiras, mas na verdade, elas são corpos e mentes a serviço desses rapazes. Alguns podem ladrar: “mas elas fazem isso porque querem”. Sim, lógico. E é por isso que digo que a combinação é explosiva, sem intenção de distribuir a culpa. Mas independentemente da ordem dos fatores, o que vemos são mulheres se subjugando a homens ricos e famosos.

Moças e moços ambiciosos, livres e cada um com um interesse diferente vivendo relações pautadas por coisas bem distantes de amor e tesão. Quando vemos Neymar pagar passagem e hospedagem para a moça (e ainda perguntar se ela não quer trazer uma amiga para não ficar muito sozinha) estamos diante de uma gigantesca demonstração de poder. E mesmo evocando nosso lado mais ingênuo e acreditando que foi a primeira ou a única vez que o jogador fez isso: estamos diante de um homem que manda vir da terra natal (além-mar) mulheres para satisfazerem seu prazer. Podemos nos perguntar, mas será que na França não há moças que dancem funk e combinem com ele? Claro que há, inclusive brasileiras. Mas o poder está justamente em “mandar vir”. Em ser o mestre dessa cena, o chefe, o pagante.

Esse é o poder do dinheiro, mas não só dele. É o poder da fama também. Todos nós temos a sensação de que conhecemos Neymar muito bem. Quem aqui não entraria num carro com ele? Afinal, conhecemos sua família, sua história, seus podres e claro, seu potencial midiático. Se quem estivesse na ponta da linha fosse (apenas) um milionário desconhecido, muitas das moças não embarcariam na conversa. Leia-se, muitas moças não topariam se submeter às vontades, datas e desejos deles.

E a podridão está aí. Nesta cultura criada em torno dos (bem-sucedidos) jogadores de futebol brasileiros que os coloca em posição de rei, no sentido mais escroto da palavra. Entorpecidos pelo poder e pela grana eles acabam sentando no trono e agindo de forma autoritária, principalmente em relação às mulheres.

Uma dinâmica que já começa tóxica e não precisa muito para acabar em embricadas brigas na justiça, estupro, morte ou acusações mentirosas.

É por isso que eu digo que independentemente do desfecho dessa história, ele será triste. Será mais uma vez o escancaramento dessa dinâmica com ética e princípios frágeis que demonstra a total falta de preparo emocional para lidar com a ascensão meteórica. Porque dinheiro não traz dignidade, ao contrário, nos leva para uma linha tênue onde o mundo parece estar aos nossos pés.

 

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Querer acabar com a pornografia é como querer acabar com as drogas http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/29/querer-acabar-com-a-pornografia-e-como-querer-acabar-com-as-drogas/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/29/querer-acabar-com-a-pornografia-e-como-querer-acabar-com-as-drogas/#respond Wed, 29 May 2019 07:01:43 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1458

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“A pornografia tem que acabar pois é uma forma de escravidão sexual”, afirmou a socióloga inglesa Gail Dines em entrevista. Rapidamente ela ainda sugere uma forma de se fazer isso: “O caminho seria tirar qualquer dinheiro envolvido para que essa indústria parasse de lucrar e acabasse”. Super simples. Só que ninguém até hoje conseguiu.

A indústria da guerra às drogas vem tentando acabar com o “mal” exatamente dessa maneira há décadas, e o máximo que conseguiu foi lotar as cadeias com a turma da ponta do iceberg. O que, claro, favorece os mais desonestos e quem manda mesmo na parada.

Pois com o pornô é a mesma coisa. Propor a extinção da maneira como Gail sugere soa ingênuo e simplista. Primeiro porque já sabemos que não basta proibição para acabar com as coisas e segundo porque jogar no mesmo balaio iniciativas éticas e práticas violentas é o mesmo que misturar esgoto com água potável. Ou seja: a técnica mais rápida para aumentar exponencialmente o esgoto é perder justamente a parte que era pura, boa para consumo.

Pra ficar na analogia das drogas: é o mesmo que botar na (mesma) clandestinidade traficantes armados até os dentes e a família que compra canabidiol para aliviar a doença do ancião. Não resolve e só turva a parte real do problema.

A pornografia de fato deturpou e ainda deturpa muita gente por aí. Quando a família se omite na educação sexual, a escola se esgueira para longe do assunto e a internet está no bolso de todos, o resultado é que com cliques a esmo jovens e crianças trazem para dentro de casa (mesmo das mais íntegras e abençoadas) o pior do sexo. E não é um amiguinho mais safado que fala bobagens. Não. São filmes que pregam a submissão da mulher, que estimulam a violência e glamurizam “ninfetas” que poderiam ser as nossas filhas menores de 12 anos.

Sim, porque quando a gente não fala de sexo, o hard porn de fácil acesso fala por nós.

É por isso que eu acho a visão da socióloga um pouco ultrapassada. Uma visão que não leva em consideração a cultura, os hábitos e a história da humanidade. Uma visão tão romântica quanto equivocada do potencial humano de fazer merda – mesmo quando não pode.

A pornografia faz parte de nossas vidas. Depois da popularização de câmeras, falar em extinção é quase um delírio. E tenham certeza, quanto mais tirarmos o dinheiro do setor, mais as mulheres serão exploradas. Eu não duvido que se esse dia de veto total chegasse, mulheres começariam a ser escravizadas para produzir conteúdo lixo.

A pornografia está entre nós, faz parte de nós (ok, de uns mais e outros menos, mas digo nós no sentido social) e jogar na clandestinidade só fortalece quem sempre esteve no comando, abusando de mulheres, remunerando mal e passando uma visão totalmente equivocada do que é sexo.

Porque se foi possível influenciar de forma errada toda uma geração com encenações grotestas, podemos influenciar também mostrando uma pornografia real, parecida com a que praticamos em casa, uma pornografia com amor, com gozo pra todo mundo e sem violência. Uma pornografia que remunera direito seus atores ou então mostra o que as pessoas com corpos e desejos reais estão fazendo. Sim, porque muito da pornografia que se faz por aí é caseira, feita por puro exibicionismo. O problema é que muitas delas são totalmente contaminadas com essa visão de pornô violento que dominou o mercado por tantos anos.

Então, Gail, me desculpe. Mas vocês tiveram uma vida para “acabar” com a pornografia. Agora que tem gente (em sua maioria mulheres!) entrando pro jogo e mostrando que dá pra fazer diferente, não vai dar pra te apoiar. #FicaPornografia #PornografiaJusta #SexoReal.

Links para quem quer se aprofundar:

Entrevista com a criadora do Make Love Not Porn, Cindy Gallop (Revista TPM)
Entrevista com a produtora de filmes pornôs Erika Lust (Revista Marie Claire)
Entrevista com a diretora Albertina Carri (Hysteria)
Texto da diretora Livia Cheibub (Hysteria)
Reportagem sobre pornografia feminista (BBC)
Texto da diretora do Sexlog Mayumi Sato (Universa)
Entrevista com professora Mariana Baltazar (Hysteria)

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Me peguei nostálgica, com saudade do tempo do SMS raiz, o SMS maroto http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/me-peguei-nostalgica-com-saudade-do-tempo-do-sms-raiz-o-sms-maroto/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/me-peguei-nostalgica-com-saudade-do-tempo-do-sms-raiz-o-sms-maroto/#respond Mon, 27 May 2019 07:48:39 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1451

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Descontos em apps de entrega que nunca baixei, promoções de toda sorte de aplicativos de táxi, alertas do Sem Parar e do plano de saúde e mensagens da Vivo, Sky, Itaú, Santander, Grin, GOL, Netshoes, Magazine Luiza, Dominós, Renot e Honda dentre outros. A caixa de MMS e SMS virou essa grande bolsão de spam.

De vez em nunca apita para avisar que alguém ligou e não foi atendido. Mas como o telefone toca cada vez menos, sobram as promoções. Muitas delas dizendo que estão “com saudade de mim” – esse é o novo hit do marketing.

Hoje me peguei nostálgica, aí sim, com saudade do tempo do SMS raiz, SMS maroto.

Porque lembremos, quando os aparelhos de celular se popularizaram nos formatos de tijolões as mensagens de texto representaram uma revolução. Antes, para receber uma mensagem desse tipo era preciso usar os extintos bipes e pagers que envolviam ditar o recado para as telefonistas. Ou seja, quando começamos a ser os próprios transmissores de nossos textos não havia censura prévia e nem constrangimento de mandar um recado de amor e safadeza. Foi tipo atingir a maturidade e sair da casa dos pais.

Não é exagero dizer que o SMS foi o pontapé inicial das redes sociais. Ele abriu as portas para um tipo de comunicação que nos trouxe para onde estamos hoje, esse universo de grupos silenciados no WhatsApp e paquera via apps. Sim, porque em tempos remotos (ou quase isso) era tudo via torpedo – que aliás, ganhou este apelido por ser muito rápido. Lembrando que seus predecessores eram telegramas, cartas e pagers afins. Fofo.

Pois hoje essa ferramenta é (tipo) o tio do pavê, aquele que acha que está abafando mas não dá uma bola dentro. Virou um grande bolsão de mensagens indesejadas. Ah, sim, porque promoções são muito legais, mas quando todas as marcas e serviços invadem o seu celular pra te dar um desconto, fica mais o efeito da invasão do que do desconto.

#Rip SMS de amor.

 

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O “transar ou não no primeiro encontro” deu lugar a um problema novo http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/o-transar-ou-nao-no-primeiro-encontro-deu-lugar-a-um-problema-novo/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/o-transar-ou-nao-no-primeiro-encontro-deu-lugar-a-um-problema-novo/#respond Tue, 21 May 2019 07:10:44 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1445

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Há cerca de 20 (30?) anos era comum a discussão sobre transar no primeiro encontro – estamos falando das mulheres, claro. Porque para os homens isso nunca foi um problema. As revistas versavam sobre a questão, empurravam as minas e as manas para a independência, enquanto em entrevistas, rapazes “de família” ponderavam que talvez isso não fosse uma boa ideia.

Pois bem. Estamos em 2019 e antes que andemos pra trás, vale frisar um ponto: a discussão sobre transar no primeiro encontro deu lugar para dormir junto no primeiro encontro.

Em tempos de aplicativos de paquera e empoderamento de quem não deve nada a ninguém é a intimidade no primeiro encontro, o dormir lado a lado, o ouvir o ronco, o acordar com cara amassada que incomoda as mulheres. Há quem diga que dormir junto é coisa pra casal apaixonado e que isso leva ao menos uns 5 (ou 15?) encontros.

Preciso confessar: eu adoro essa discussão. Adoro ver as mulheres separando amor de sexo. Claro que colocar o dormir junto na casinha do amor pode ser um pouco de exagero. Tem muita gente que dorme junto por preguiça de ir embora na madrugada ou que acha que dormir uma noite coladinho enriquece a alma e levanta o astral, mas o que importa aqui é exatamente o paradigma que tira o sexo da discussão.

Vivi para ver o dia em que transar no primeiro encontro não seria mais o eixo da problematização.

Pois voltemos a esta noite onde desconhecidos se conectam, trocam beijos, amassos, fluidos e energia vital mas recuam na hora de se entregar ao sono dos justos. Os incômodos da geração hiperconectada não estão na carne ou na pele e sim na intimidade.

Para quem vive grande parte da vida nas (assépticas) redes sociais, detalhes como escovar os dentes, acordar com bafo, desmontado e com aquele mau humorzinho matinal é que pegam. Não seria exagero dizer que a vida em rede virtual tem nos tornado seres estranhos. Ao mesmo tempo que mostramos nossa vida, nossa casa, nossas férias, nossas questões no Instagram, nos Stories e no Tik Tok, recuamos quando, face a face, nos tornamos totalmente humanos. Com cheiro, sem edição e sem filtro; ou seja, sem controle prévio. Estamos tão acostumados a controlar o que queremos mostrar de nós que quando nos deparamos com nossa humanidade em tempo real somos cobertos por um incômodo tremendo.

Alguns podem dizer: “ah, mas não é isso. É que eu gosto de dormir na minha cama”. “É porque não gosto do cheiro do travesseiro dos outros” ou “gosto de acordar sozinha”. Entendo. Tudo isso pode ser verdade, mas nada me tira da cabeça que a criação desse “eu” tão rodeado de manias e especificidades tem muito a ver com a vida meio virtual, meio calabresa que levamos hoje. Nos acostumamos com poder selecionar o que queremos mostrar de nós e, ao vivo, a dois, no tête-à-tête, isso é impossível.

Alguns podem discordar da minha teoria, mas a verdade é que enquanto a discussão não devolver as mulheres para debaixo da asa do marido, do pai ou de qualquer outro homem a quem deva submissão e obediência, está tudo maravilhoso.

 

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Caro Bolsonaro: infelizmente nossos filhos mentem, roubam e dirigem bêbados http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/caro-bolsonaro-infelizmente-nossos-filhos-mentem-roubam-e-dirigem-bebados/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/caro-bolsonaro-infelizmente-nossos-filhos-mentem-roubam-e-dirigem-bebados/#respond Fri, 17 May 2019 07:42:30 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1436

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Tem uma frase que eu gosto muito que diz “criar filho é fácil, educar é que é difícil”. Nada mais verdadeiro no mundo de pais, mães e cuidadores do que isso. Passar valores éticos, dar limite, saber a hora de estimular e a hora de segurar é um baita desafio.

E o que mais vemos são pais fazendo vista grossa para as questões dos filhos: está com problemas na escola? É incompetência da instituição. Está com questões de relacionamento? O mundo não compreende meu filhinho querido. Teve quiprocó no futebol? Muda de escolinha porque essa não presta. E por aí vai.

Claro que é importante discutir as questões coletivamente, envolver a comunidade no problema e não individualizar tudo – em alguns acontecimentos no mundo a culpa é de todos nós.

Mas fechando o foco na relação entre pais e filho: tem muita gente por aí sem disposição nenhuma para ver as limitações da própria prole. Encarar de frente que ele (ou ela) está com problemas, assumir que ele (ou ela) não foi bacana ou que foi desonesto ou desonesta é encarar os fatos de frente, e sim: é para os fortes.

Quando um problema é descortinado, o mais comum é vermos atiçado nosso mais cru instinto maternal (ou paternal) puxando a cria pra debaixo de nossas asas e jogando a culpa em qualquer um que seja, menos no nosso filhinho querido.

A gente viu um exemplo didático sobre isso recentemente em um jogo de futebol de crianças em Brasília. Convencido de que o filho de oito anos foi agredido no parquinho, o pai segura o outro garoto e ordena que o filho bata nele. Pra completar a cena dantesca a mãe chega e também bate no menino – que como testemunhamos pelas câmeras de segurança era totalmente inocente. Esse é um ótimo exemplo do delírio e da falta de senso de educação dos pais que não souberam avaliar com frieza e distância a situação e muito menos lidar com o problema.

Dou esse exemplo porque a gente não pode sempre acreditar nos nossos filhos. Infelizmente eles podem mentir ou apenas ter uma visão deturpada da realidade. Quanto mais novos, maior a probabilidade dessa segunda hipótese, quanto mais velhos, maior a chance de estarem mentindo mesmo. Pois é: filhos mentem.

E aqui me vem em mente nosso excelentíssimo presidente e seu filho Flávio.

O Ministério Público do Rio de Janeiro vê “indícios robustos dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no gabinete de Flávio no período em que ele exercia o mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, de 2007 a 2018“, mas Jair, o pai, vê apenas a injustiça do mundo contra seu filho (igualzinho ao pai de Brasília?) Flávio nega. O Ministério Público investiga e soma provas. E Jair? Jair diz que o filho está sendo esculachado e fala de complô.

Ao pai Jair minha solidariedade. Não é fácil lidar com a independência e as decisões (muitas vezes erradas) de nossos filhos. Porque sim: nossos filhos fazem bulling. Nossos filhos dirigem alcoolizados. Nossos filhos queimam índio. Nossos filhos roubam.

E na hora em que alguma podridão, defeito ou falha de caráter de nossas crias vêm à tona bate uma tristeza danada e uma culpa gigantesca. Porque quando encaramos o fato de que nossos filhos falham, algo em nós falha também. Quando nossos filhos mentem, sentimos que tudo foi em vão.

Mas é preciso encarar a realidade. É preciso olhar de forma crítica para a prole. É preciso saber o momento de tirar os herdeiros de baixo de nossa asa e dizer: agora você vai responder pelo que fez. Mudar de escola, de bairro ou simplesmente negar não nos levará a um lugar melhor. Ao contrário. Só mostrará que de fato erramos (e seguimos errando) na educação que escolhemos dar.

É fundamental que saibamos ver os defeitos e os erros de nossas crias. De outra forma, seremos um monte de pais e mães defendendo seus pobres filhos injustiçados e segurando o coleguinha pro filho bater.

 

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Neste Dia das Mães eu quero… fazer cocô http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/neste-dia-das-maes-eu-quero-fazer-coco/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/neste-dia-das-maes-eu-quero-fazer-coco/#respond Fri, 10 May 2019 07:00:52 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1429

(iStock)

Sim, neste glorioso Dia das Mães eu quero um tempo ilimitado sentada no trono, com a porta trancada, uma música de fundo e sem hora pra acabar.

Claro que eu poderia usar palavras mais suaves e dizer que gostaria de “um tempo só pra mim”, mas a verdade é que essa expressão gourmetizada não passa a realidade dos fatos. Não falta só esse tempo contemplativo para sentir a unidade do meu ser e beber um vinho, ler um livro ou observar a paisagem. O que falta – pra mim e pra muitas mães –  é tempo para as coisas básicas mesmo.

Depilação? Um sonho de consumo. Comer lentamente degustando o almoço? Projeto verão 2030. Cineminha? Só se não for filme infantil dublado. Cervejinha com as amigas? Quando chega o dia, só tenho força pra dormir.

Conclusão: existe muito amor na maternidade, mas glamour mesmo não há nenhum.

E é difícil até ir ao banheiro. Duvida? Começa pelo fato de que tem mil demandas das crianças, passa pela fase dois em que tem que olhar as bebês, ainda pequenas e chega na fase três que envolve o atraso. Ah, o atraso. Mães são bichos atrasados. Daí quando viu, tá na hora de sair pra escola (atrasada) ou pro trabalho (atrasada) e… não deu pra fazer cocô.

Mães vivem levando seu intestino cheio pra passear. Levam a bexiga cheia também, o cabelo sem lavar, a roupa sem passar, o dente sem escovar, uma meia de cada pé e por aí vai.

E olha: eu adoro ser mãe! Tenho quatro filhos e sou muito feliz assim. Mas não vou mentir pra vocês, dá um trabalho danado e tem aí uma, duas ou duzentas privações. Porque os filhos não vêm sempre com aquela pinta descolada e amorosa das hashtags do Instagram. Eles vêm com lição difícil pra fazer, dor de garanta pra curar, dente mole pra arrancar, perguntas estranhas pra responder e claro, bunda pra limpar. Porque, ironicamente, se tem uma coisa que mãe faz é limpar cocô.

“Mas, Lia, já já eles crescem você vai morrer de saudade” (o povo ama essa frase). Eu sei. Mas agora, só queria mesmo era ir no banheiro em paz.

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