Lia Bock http://liabock.blogosfera.uol.com.br Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo. Thu, 22 Aug 2019 07:00:32 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Xingamentos são a porta de entrada para ‘drogas’ mais pesadas  http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/xingamentos-sao-a-porta-de-entrada-para-drogas-mais-pesadas/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/xingamentos-sao-a-porta-de-entrada-para-drogas-mais-pesadas/#respond Thu, 22 Aug 2019 07:00:32 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1693

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A gente passa anos ensinando as crianças que não pode xingar. Põe de castigo, corta a sobremesa, explica com paciência. No trabalho, se um colega ou chefe te xinga configura assédio moral e pode dar demissão por justa causa. Aluno xingando professor ou professor xingando aluno geralmente leva a expulsão da escola.

Agora me respondam, vocês acham mesmo que no casamento deveria ser diferente?

Não vou ser nem um pouco tolerante aqui e acho que todos e todas deveriam fazer o mesmo. O xingamento é a porta de entrada para agressões mais pesadas que, em breve, darão as caras. Sim, elas virão! E é por isso que no primeiro “filha da puta” que alguém soltar é preciso parar tudo e começar uma análise minuciosa dessa relação. A ajuda de um terapeuta ou especialista pode ser bem vinda. Melhor um psicólogo quando começa do que a polícia quando acaba. 

Não tem “mas ele estava nervoso” ou “ela é estourada mesmo”. Não! Xingamento é agressão verbal, é desrespeito e é o começo de uma descida vertiginosa para um lugar muito pior. O que estou querendo dizer sem meias palavras é: tenham medo de gente que xinga!

E acompanhem comigo, uma coisa é uma pessoa que fala muito palavrão. Que fala “fodeu”, “puta merda”, “que bosta”, “caralho”. Outra, bem diferente, é uma pessoa que xinga o outro pontualmente. Não misturemos as coisas! Conheço muita gente que usa bastante palavrão na sua linguagem do dia a dia, mas nunca xingou ninguém. 

Aqui estou falando especificamente de xingamentos direcionados, de agressão entre as partes de um casal. E tenham certeza, não tem nível saudável quando estamos falando de violência – mesmo que seja verbal. 

Xingamento de marido ou mulher é coisa que só pode acontecer uma vez, deve ser resolvida com a pompa que merece. E, de duas uma: ou nunca mais acontece ou um abraço e tchau. 

Precisamos treinar nossos ouvidos e mentes a se ofenderem de morte quando o cônjuge nos xinga. Precisamos interromper o ciclo de violência que se desenrola depois de um “sua filha da puta”. Aliás, esse é o xingamento favorito de quem quer esmigalhar o parceiro ou parceira. 

Leia mais:
> Traição está em alta
> Por que os casais param de beijar na boca?
> Casamento aberto (só pra mim)

Sempre fico pensando porque as pessoas seguem casadas com alguém que julgam “filha da puta”, que – sem entrar no mérito da junção das palavras em si –  significa ser sacana e desonesto. Não sabemos se as pessoas pensam isso mesmo ou se estavam usando o recurso apenas como forma de agressão. Mas sabemos, sim, que ambas as coisas são péssimas. Porque não existe “só estava querendo me agredir”, como escutamos algumas vezes. O “só” não combina com essa frase porque agredir é uma coisa séria e precisa ser tratada como tal. 

É preciso tolerância zero com os nervozinhos e agressores afins até pra que consigamos diferenciar uma coisa da outra. Se a pessoa é estourada e soltou o xingamento de cabeça quente dá pra reverter, dá pra cuidar, tratar, policiar. Mas pra isso é preciso que fiquemos indignados, e muito. É preciso que a pessoa entenda que aquilo é grave e que não vamos tolerar. Mas, se a coisa se repete, aí meus amores, não paguem pra ver até onde isso vai. 

O casamento nem sempre é facinho ou leve e discutir, se desentender, faz parte. Mas isso não precisa envolver nenhum tipo de agressão. Não caia nessa de que “essas coisas fazem parte”.

 

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Piada com pinto pequeno, pode? http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/20/piada-com-pinto-pequeno-pode/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/20/piada-com-pinto-pequeno-pode/#respond Tue, 20 Aug 2019 07:00:31 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1685

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Na semana passada, um áudio que ninguém sabe se é ficção ou vazamento real viralizou no WhatsApp. Nele, uma senhora relata o encontro casual com um homem lindo, mas “sem um pingo de pinto”. Verdadeiro ou não, o áudio é engraçado. Mas, a partir do momento em que ele se espalha como poeira ao vento, tira a discussão do zap e das rodinhas em volta de uma cerveja e joga no mundo. 

Nesta hora é preciso se aprofundar um pouco no tema e é aí que a polêmica está formada: fazer piada com pinto pequeno configura algum tipo de infração?

Já adianto que não há consenso na resposta. Mas podemos levantar algumas questões. 

É claro que chacota com o tamanho do pau não se equipara a piadas com negros ou gays, uma delas é crime e a outra está em vias de ser. Mas, se estamos discutindo masculinidade tóxica e tentando quebrar um sistema patriarcal machista ancorado na virilidade masculina, será que esse tipo de piada não nos joga algumas casas para trás?

Não estou aqui dizendo que quem só curte pintos avantajados deva rever suas escolhas. Existem tamanhos para todos os gostos e gostos para todos os tamanhos (acho). Mas evitar homens com pinto pequeno não é a mesma coisa que fazer piada com pinto pequeno. Disseminar um áudio em que um homem que (aparentemente) sofre de micropenia vira piada só faz aumentar a neura com uma questão que fisiologicamente não tem solução. 

Eu, pessoalmente, não gosto de piadas com mulheres que tem a bunda pequena (ou grande) e nem com pessoas gordas. Por isso, me incomoda um pouco esse gargalhar coletivo com o cara “sem um pingo de pinto”.

Vejam, sou capaz de chorar de rir se uma amiga me relatar um date que teve com um rapaz pouco dotado, mas quando isso é um áudio pra geral, já não acho tanta graça. 

Todo apontar de dedo com milhares de pessoas gargalhando sobre a condição de outra pessoa me incomoda. 

Algo me diz que, quando caímos nas graças desse tipo de piada, estamos estimulando a pouca tolerância com o diferente e, principalmente, jogando um monte de rapazotes em idade de descobrimento e insegurança numa vala nada confortável e com potencial altíssimo de dar merda. 

Se ensinamos nossos filhos que pinto pequeno é motivo de piada nacional e viralizada, jogamos sobre eles uma tensão sobre o tamanho de seus próprios membros. E esse tipo preocupação não é nada saudável. 

Leia mais:
> Afinal, o tamanho do pinto importa?
> Precisamos ter responsabilidade digital
> As redes sociais e os fins dos casamentos  

Fora isso, pensem nos homens que têm pintos menores do que a média considerada “boa” na semana (mês?) em que o assunto veio à tona de forma jocosa. Entram todos no hall da chacota, da vergonha, do isolamento, do medo, da depressão. 

“Mas então você está dizendo que não podemos fazer piada com mais nada?”. Não é isso. O problema não é a piada em si, mas os meios e o potencial viralizador que a internet e as redes sociais criaram. Hoje precisamos ter consciência de que nada mais é “só uma piada”. Assim como não é só um nude enviado para o crush online. Tudo que vira troça globalizada deixa de ser só a coisa em si e passa a um outro patamar onde ética digital e integridade psicológica de outras pessoas precisam ser levados em conta. 

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Traição está em alta: você e seu cônjuge já conversaram sobre o assunto? http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/15/traicao-esta-em-alta-voce-e-seu-conjuge-ja-conversaram-sobre-o-assunto/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/15/traicao-esta-em-alta-voce-e-seu-conjuge-ja-conversaram-sobre-o-assunto/#respond Thu, 15 Aug 2019 07:00:04 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1675

(crédito: iStock)

Traição virou assunto. Virou mercado. Tem reportagem especial e serviços direcionados. Tem TED com milhares de views e muita gente disposta a gastar seu tempo discutindo, assistindo ou lendo sobre o assunto.

Desde os mais bem intencionados –que estão em busca de um jeito honesto e sustentável de manter o casamento– até a galera da mentira deslavada e sistêmica: está todo mundo a procura do melhor caminho para equacionar amor, sexo, parceria, tesão, projetos comuns, privacidade, lealdade, desejo e mais um par de coisas que varia de casal pra casal.

Só que no meio da caminho tem a tal traição.

Ela está cada vez mais na pauta basicamente por dois motivos. Um: porque tem muita gente que não está a fim de ter desonestidade na equação da relação e prefere lidar às claras com a questão. E dois: porque a tecnologia tem trazido para a superfície coisas que outrora ficavam muito bem escondidas em alguma plataforma ou dispositivo que não andava no nosso bolso.

De um jeito ou de outro, hoje é muito válido ter uma opinião sobre o assunto e, claro, que ela corresponda ao que você aplica na sua vida.

E aí, o que você pensa sobre traição? O que é traição pra você e principalmente: seu cônjuge sabe como você pensa? Concorda ou discorda de você?

Às vezes, é um pouco desconfortável entrar nessa conversa com o parceiro ou a parceira logo de cara, mas conversar com os amigos funciona pra quebrar o gelo e dar uma treinada no jeito de apresentar sua opinião. Porque é claro que você pode fingir que não pensa no assunto e que ele só está em alta da porta pra fora, mas a verdade é que infidelidade é um problema sistêmico e, se não te afeta diretamente, afeta seus familiares, seus amigos, vizinhos, professores, colegas. E, desculpa dizer isso, pode te afetar algum dia.

Nós estamos querendo demais dos casamentos. Como bem diz Esther Perel. Queremos a alegria, parceria, desejo, tesão, amor… Tudo pra sempre. Um pra sempre que tem ficado cada vez mais curto tamanhas as exigências que fazemos.

Um bom começo de conversa pode ser separar infidelidade e traição e não só definir as bordas da relação, como falar do assunto em tese, de forma filosófica. E se fazer a pergunta: como a gente faz pra ficar junto por muito tempo, manter a chama e o botão do desejo ligado?

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    Hoje tem muito casamento sobrevivendo a problemas relativos a infidelidade justamente porque já não se espera tanto do outro. Já não se espera amor, desejo e sexo exclusivo eterno. Os mais sábios (palmas pra eles!) estão conseguindo lidar com o assunto de uma maneira menos drástica e discutir a questão de peito aberto, assumindo a humanidade que há em nós. Sim, porque transar com pessoas fora da relação é uma realidade. Fisgue nosso coração ou não.

    Não tô dizendo que falar do assunto blinda as pessoas de sofrerem de morte quando descobrem que o parceiro ou a parceira ficou, transou ou está de teretetê sensual pelo zap. É sempre uma paulada. Mas a gente pode se preparar pra ela como se prepara pra pegar chuva em Ubatuba. Você não quer que aconteça, mas em todo caso é sempre bom levar o Dixit e o baralho.

    Uma coisa que tenho achado importante nesse preparo para lidar com a traição é, mesmo nos momentos de desconfiança latente, não olhar o computador ou o celular do outro. Um nude do amante ou uma frase fofa da fulaninha pode nos quebrar ao meio, enquanto “apenas” ficar sabendo do fato (em tese, sem provas cabais) te poupa da facada visual.

    Sei que falar é mais fácil do que fazer, mas tente de tudo. Até mesmo dizer: “Tô com muita vontade de olhar o seu celular. O que eu faço?” Se resguarde. Resguarde a relação (se você gosta dela) e bora buscar uma sinceridade que até então não foi muito treinada. Sim, porque a nossa cultura emocional e sexual nos ensina que devemos esconder a infidelidade e o desejo, diz que mentir até as últimas consequências é o melhor a fazer.

    Pois está na hora de questionar esse modus operandi. Não tô dizendo que devemos jogar no outro tudo que passa na nossa cabeça, mas um pouco de transparência pode nos levar a um caminho mais harmonioso.

    Sintonia é uma coisa que exige um certo esforço. Exige treino, ensaio e dedicação. A harmonia pode até sobreviver a um caso extraconjugal, mas muitas vezes ela se espedaça frente a uma cultura de mentira, enganação e meias verdades.

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    Troque o vidro fumê do carro pelo vento na cara do patinete http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/13/perigosos-e-libertadores-patinetes-eletricos-mudam-a-relacao-com-a-cidade/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/13/perigosos-e-libertadores-patinetes-eletricos-mudam-a-relacao-com-a-cidade/#respond Tue, 13 Aug 2019 07:00:18 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1666

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    Os patinetes elétricos alugados via app na rua são uma mão na roda. Encurtam caminhos e evitam o trânsito, mas a principal vantagem é a criação de uma outra relação com a cidade. Sobre os patinetes, nossa relação com o espaço se aproxima da de um pedestre ou ciclista, só quem com mais agilidade e sem suor. Para paulistanos, habituados a se blindar com vidro fumê e ar-condicionado, é uma transformação e tanto.

    Voltamos a ser humanos no espaço público e isso tem impacto não só na sensação de pertencimento como na relação com os outros, com as belezas urbanas e com os problemas também, que passam a ser um pouco mais nossos. Sentimos a temperatura do dia e as estações do ano, nos abastecemos de vitamina D e de uma certa humildade. Sim, porque quando entre a nossa pele e o mundo não há nada, deixamos o que vem de fora nos atingir. Pode ser o sol, pode ser a chuva, um idoso precisando de auxílio ou até mesmo o medo. E isso não é necessariamente ruim, porque sentir é bom!

    Outro dia uma amora caiu no meu ombro e manchou o casaco bege, claro que eu não fiquei feliz com a mancha, mas algo nesta corriqueira cena de quem transita a céu aberto me trouxe um sentimento bom.

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    Vocês podem dizer: mas muita gente anda a pé ou de bicicleta. Sim, verdade. Mas tenho reparado que entre os adeptos dos patinetes há muitos que estariam dentro de um táxi ou de um Uber. Atrai essa turma, claro, porque são esses que podem pagar pelas corridas. Verdade seja dita: o translado no patinete não é nada barato.

    Aliás, esse é o único defeito dos patinetes. São caros demais e, se estamos em duas ou mais pessoas, deixam de valer a pena frente a um Uber, por exemplo.

    Mas os patinetes não são só meios de transporte. Eles são uma opção de passeio, de curtição. E não tô falando só de domingo pra dar a volta na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, ou passear pela Vila Madalena, em São Paulo. Estou falando de aproveitar o passeio enquanto você se dirige ao trabalho, ao médico, à faculdade e afins.

    Porque a gente tem essa mania de achar que pra aproveitar a cidade é preciso ser final de semana, feriado ou férias. E a verdade é que podemos (e devemos) fazer isso o tempo todo.
    É por isso que gosto dos patinetes e também das bicicletas de aluguel. Eles nos mostram que a cidade é nossa e aproveitá-la não é questão de tempo, dia ou hora marcada.

    Mas não é perigoso?”. Eu costumo dizer que viver é perigoso, mas vou me aprofundar aqui para não ser leviana.

    Sim, existe risco, assim como andar a pé, andar de bicicleta ou entrar no mar em Ipanema. O capacete é obrigatório (apesar de, muitas vezes, o uso do patinete não ser planejado e ficar impossível recorrer a esse item de segurança) e, para os que não são exatamente habilidosos, vale demais um treino cauteloso antes do uso prático.

    O freio na mão é um perigo, já que as pessoas costumam colocar a mesma intensidade do que no acelerador, e isso faz com que o patinete pare repentinamente, jogando a pessoa lá na frente. Usar o freio do pé é mais orgânico, eu diria. Já teve gente com braço e dente quebrado? Sim, o patinete não é brinquedo. É meio de transporte e nele a responsabilidade é toda nossa.

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    Ser mãe foi a melhor coisa que me aconteceu. E a pior também http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/09/ser-mae-foi-a-melhor-coisa-que-me-aconteceu-e-a-pior-tambem/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/09/ser-mae-foi-a-melhor-coisa-que-me-aconteceu-e-a-pior-tambem/#respond Fri, 09 Aug 2019 07:00:55 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1656

    Miá Mello em cena Foto: Divulgação

    Hoje já sabemos que o conceito “boa mãe” é tão elástico quanto questionável e que a felicidade plena na maternidade só existe no Instagram. Mesmo assim, ainda não temos coragem de dar os tons exatos da vida materna. Parece que falar das dores nos tira estrelinhas ou pior, faz com que nosso amor pelos filhos seja questionado.

    É por isso que a peça “Mãe fora da caixa” (em cartaz no Rio de Janeiro) de Miá Mello mexe tanto com a plateia. E quando digo mexe quero dizer que faz um reboliço. Tem gente que soluça na identificação das dores e na sequência gargalha solto com as piadas de timing preciso.

    Eu diria que a peça está para as mães de filhos pequenos assim como a “Homens são de marte… é pra lá que eu vou” esteve para as mulheres solteiras. Ou seja, tem um potencial viral gigante porque faz uma identificação rápida no melhor estilo sincericídio. Lembrando que a peça de Mônica Martelli levou 2,5 milhões de espectadores ao teatro, depois foi para o cinema e para a televisão.

    Isso porque no monólogo Miá finca o dedo em verdades. Baseado no livro de mesmo nome da escritora Thais Vilarinho, a peça fala de culpa, de privação de sono, da solidão, do tal amor incondicional, de sexo, da sogra (etc), tudo com muito humor e acidez.

    Veja mais:
    > Quero fazer cocô!
    > Onde está a mãe dessa criança?
    > Repouso é o ostracismo da maternidade

    Pra quem está com criança de menos de dois anos em casa (tipo eu! minhas gêmeas têm 1 ano) é como se tudo que quiséssemos dizer fosse jogado do alto de um prédio na cabeça do mundo. Miá diz o que a gente pensa e sistematiza umas outras coisas que a gente nem sabe que estava pensando.

    É impossível não reviver fatos e causos de nossas próprias vidas enquanto Miá atravessa o palco catarticamente liberando sentimentos que as mães não estão autorizadas a sentir. Tristeza, raiva, dor, incômodo, solidão. Sim ser mãe é a melhor coisa do mundo, mas tem dias em que pode parecer a pior coisa que te aconteceu. E tudo bem. Lá vem Miá com alguma gracinha naturalizar o que a sociedade ainda deixa na caixa do “indizível”.

    Porque ainda precisamos quebrar a casca da mãe perfeita, do maior amor do mundo e da alegria plena para cutucar o que há por dentro das mães recém-nascidas. Precisamos que se escreva em letras garrafais que há muito mais coisas entre a mãe e seus filhos do que reza a cartilha do Instagram ou os cursinhos da maternidade.

    E o mais importante, é bonito de ver como Miá (ao lado da diretora Joana Lebreiro, da escritora Cláudia Gomes e do produtor Pablo Sanábio) consegue ir tão fundo mantendo a magia e a leveza teatral. “Mãe fora da caixa” não é uma aula e nem uma bronca, é uma diversão, um descarrego e uma atualização do software materno.

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    Internet não é lugar para criança andar sozinha http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/06/internet-nao-e-lugar-para-crianca-andar-sozinha/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/06/internet-nao-e-lugar-para-crianca-andar-sozinha/#respond Tue, 06 Aug 2019 07:00:19 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1648

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    Esta semana meu filho de 10 anos ganhou um celular dos avós. Um clássico. Era só pra ele “usar nas férias”, mas óbvio que isso era conversa pra mãe dormir.

    “Ernesto está te seguindo no Instagram.” Rapidamente ele estava plugado nas redes, onde a maioria dos amigos, os primos e um punhado de crianças da idade dele já estavam.

    Veja também:

    A culpa é sempre da mãe
    Pais tóxicos vêm disfarçados de pais preocupados
    A arte de ignorar os brinquedos

    Diante deste fato me pus a pensar em como essa iniciação no mundão é precoce. Pra mim, as redes sociais, e a internet de forma geral, não são lugares onde crianças devem circular livremente. Me lembro das vezes em que, espevitada, eu quis acompanhar meus pais em festas, manifestações e eventos quanto era pequena e tive que me contentar com a frase: “Não é coisa pra criança”. Ponto. 

    Pois é. Pra mim, a internet não é pra criança. O Instagram e o Facebook não são para criança. Claro que há sites, Youtubes e apps específicos pra os pequenos e bem divididos por idade, mas dar um celular e uma rede de wifi para eles é como jogá-los no meio de uma festa muito louca regada a drinks e psicotrópicos. 

    Ninguém larga uma criança sozinha numa passeata ou em um estádio de futebol. Então porque raios largamos eles no vasto e imprevisível mundo da web?

    Não consigo conter a amargura (e uma pitada de raiva) por aquela primeira família que muniu seu filho ou filha com um smartfone e puxou toda a cambada junto. Quem nunca ouvir “Todo mundo tem. Porque eu não posso ter?”. 

    Os hightechs que me desculpem, mas não entendo as pessoas que não deixam os filhos irem na padaria sozinhos, mas largam um telefone na mão deles. 

    Nunca me esqueço que no impactante filme “A Caça” a origem do problema que acaba com a vida de um professor, do filho dele e desmantela uma comunidade vem de um iPad na mão de uma criança

    Conexão por uma tela individual pode levar nossos filhos a lugares tão sombrios quanto uma viela vazia no meio da madrugada, tão nocivos quanto drogas e bebida alcoólica, tão distorcidos quanto uma palestra neonazista. 

    Alguns me aconselham a resignação. Outros dizem que é simples, é “só recolher o presente até segunda ordem”. Mas não estou falando apenas de mim, estou refletindo sobre nós enquanto sociedade que dá smartfone com internet nas mãos de crianças cada vez menores achando que é “inevitável”. 

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    Esconder investimentos do parceiro é traição? http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/01/esconder-investimentos-do-parceiro-e-traicao/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/08/01/esconder-investimentos-do-parceiro-e-traicao/#respond Thu, 01 Aug 2019 07:17:28 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1636

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    Vira e mexe aparecem pesquisas que se debruçam sobre um estranho hábito dos casais: esconder investimentos e mentir sobre gastos e ganhos. Pode parecer estranho pra quem divide as contas de forma transparente, mas se você sair perguntando para as pessoas de seu círculo, vai ver que acontece com mais frequência do que reza o bom senso marital.

    Algo que beira a máxima “pequenas mentiras, grandes negócios”. Mas será que esse tipo de mentira é tão pequena assim? 

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    Esconder um investimento no qual você coloca dinheiro com frequência é considerado uma enorme traição. Casais estáveis podem ser pegos no contragolpe e ver a relação descer ladeira abaixo por causa de uma conta secreta. Porque nenhuma justificativa parece sensata ao olhar daquele que estava sendo privado da informação.

    Afinal, o que quer uma pessoa que esconde dinheiro? Difícil não achar que ela planeja o fim da relação. Difícil não achar que não confia no parceiro. E em alguns casos, dependendo de como a coisa acontece, fica até parecendo roubo mesmo. Veja, se todo o dinheiro do casal é compartilhado e de repente aparece uma conta secreta no nome de apenas um dos dois, configura caixa dois, não configura?

    Sei que tem gente que prega a individualidade acima de tudo (mesmo na vida a dois). Mas nestes casos é preciso que as regras estejam claras para ambas as partes. Se cada um tem sua própria poupança e administra o quanto gasta e o quanto guarda, não tem problema nenhum. Mas, a partir do momento em que o casal resolve misturar as finanças, a manutenção de uma conta individual e sem que o outro tenha conhecimento é uma baita sacanagem. 

    Lembremos aqui que trair não é só pular a cerca. Trair é tudo que aquilo que foge aos combinados feitos previamente e isso vale tanto para sexo, como para finanças. 

    E por que as pessoas escondem esse tipo de coisa? As justificativas são variadas. Vão de medo de que o outro gaste todo o dinheiro do casal até a necessidade de se sentir financeiramente seguro em caso de separação. E tem gente que nem sabe direito porque esconde e finge que na verdade, só está omitindo uma informação pouco relevante. 

    Mas não se engane. Esconder dinheiro é considerado uma falta grave dentro dos casamentos. Pior até do que esconder gastos. Sim, porque tá cheio de gente que mantém a fatura do cartão de crédito bem longe do cônjuge. Tem gente que gasta demais em joguinhos na internet, tem gente que gasta mais do que considera aceitável em pornografia, cerveja ou roupa. E, num misto de vergonha e necessidade de evitar uma briga, omite ou distorce valores. Isso pode causar um arranca rabo, mas nada se compara a descobrir um investimento secreto. Quem esconde dívida ou gasto parece aos olhos do outro uma pessoa que precisa de ajuda, mas quem esconde dinheiro, não. Este entra rapidamente na vala dos desleais.

    Não é simples explicar o porquê dessa diferença, mas dá pra arriscar que esconder uma coisa ruim (excesso de gasto) pode até ser visto como proteger o outro e esconder coisa boa (um investimento) é puramente enganação. Não conheço nenhum caso em que a pessoa descobriu a conta secreta do outro e se sentiu feliz pelo casal ter mais dinheiro do que pensava. 

    É por isso que eu digo: deixe as regras sempre muito claras, para que fiquei translúcido o que é individualidade e o que é enganação. 

     

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    Amanhã é o Dia do Orgasmo. E o que você, homem, ganha com isso? http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/07/30/amanha-e-o-dia-do-orgasmo-e-voce-homem-tem-muito-a-ganhar-com-ele/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/07/30/amanha-e-o-dia-do-orgasmo-e-voce-homem-tem-muito-a-ganhar-com-ele/#respond Tue, 30 Jul 2019 07:13:44 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1631

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    A gente pode simplesmente revirar os olhos e fazer cara de preguiça pra mais um dia de alguma coisa que deveria ser celebrada todos os dias. Mas sendo o orgasmo essa coisa tão maravilhosa e misteriosa, acho que vale a reflexão. A saber, o dia 31 de julho é considerado mundialmente o Dia do Orgasmo.  

    O dado que me move hoje é o que mostra que de 20 a 50% das mulheres não chegam a gozar nas relações sexuais. Isso é triste e tem a ver com todos nós, homens e mulheres. Tem a ver com uma cultura do sexo que privilegia o prazer masculino e com anos de repressão à sexualidade feminina. Sim, hoje eu vou tratar do sexo heteronormativo, aquele que tem mais questões a serem desvendadas. 

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    Porque diferentemente do que algumas pessoas pensam, toda mulher pode sim chegar ao orgasmo, basta investigação, dedicação e vontade. E não tem milagre: se transar como manda a cartilha da pornografia mainstream, o ápice feminino fica mais difícil e mais distante. E o que seria essa cartilha? Pouca estimulação do clitóris, preliminar curta ou inexistente e uma certa violência bate-estaca que para a maioria das mulheres não leva a lugar nenhum. Tudo que vemos nos filmes pornôs onde as gatas fingem estar morrendo de prazer, mas é tudo encenação. Ou vocês acham mesmo que a mulher goza ao sentir o jato de gozo masculino na cara?

    Uma coisa importante para começar essa conversa é saber se a sua parceira gozou ou não. “Ah, mas eu fico na dúvida”. “Ela deu um gemido mais alto, acho que rolou”. Pois saia do achismo e experimente perguntar. Clareza e sinceridade são libertadores nessa hora. E diferente do que pintam os filmes eróticos, a conversa é fundamental para o prazer a dois. Saber o que o outro gosta não precisa ser fruto de uma investigação puramente empírica. Pode vir também de um bom papo nu, pós-sexo (e pré um próximo sexo ainda melhor. That’s all about!). 

    As mulheres precisam se libertar de um certo medo de decepcionar (que faz com que muitas vezes finjam o orgasmo) e os  parceiros precisam se dedicar à causa. Experimentar, perguntar, observar, ousar. O prazer feminino é de fato muito mais misterioso do que o masculino, que de forma geral, se resume a tesão, fricção e velocidade. Pra mulher, não. Há várias outras coisas neste percurso e o mais louco é que num dia o caminho pode ser um e no outro, para a mesma mulher, pode ser diferente. O clitóris é um órgão curioso, que cresce, se esconde sob a pele e às vezes está mais pra cá ou mais pra lá. 

    É por isso que se conhecer, se tocar e experimentar o orgasmo sozinha usando os dedos ou o vibrador é importante. Assim, a gente percebe as variações do nosso corpo e aprende os caminhos que nos levam ao ápice. Se a gente não souber como chegar lá, não tem como exigir que o parceiro o faça isso sozinho. 

    Para casais estáveis, recomendo demais o uso do vibrador a dois, com o cara só observando. Repare onde, como e com que intensidade ela usa o objeto vibrante. Repare nos sons que ela faz quando está com mais tesão e o que acontece (no rosto, nos seios, na musculatura da vagina) quando ela goza. Essa observação,além de ser deliciosa, desvenda um monte de mistérios que muitas vezes no meio da pegação ficam escondidos.

    Outro ponto importante é o manuseio sem aparelhos. Tem de saber tocar o clitóris, galera! Tem que saber se a parceira gosta de mais pressão ou menos pressão. Tem que saber se ela gosta da pontinha de um dedo só, num toque suave, ou vários dedos cutucando tudo de forma mais geral. Tem que saber se ela gosta de lambidas suaves ou sucção intensa. E tem que nascer sabendo? Claro que não! Até porque isso muda de uma mulher pra outra. É preciso descobrir, perguntar e observar o que cada uma curte. 

    E daí, vocês, homens, que têm esse gozo tão simples e de fácil acesso, podem dizer: “nossa, mais que difícil!”. Sim, meus amores, é difícil mas é maravilhoso! É como uma comida dos deuses que precisa de dias para ficar pronta. É como um quadro lindo que precisa de meses para ser pintado. É como uma viagem maravilhosa que precisa ser planejada com antecedência! 

    O importante aqui é ter vontade de dar prazer pro outro, é achar lindo ver o tesão transbordar do corpo. Porque sem essa vontade, vai ficar tudo muito complicado mesmo. 

    Então, da próxima vez que você der duas cutucadinhas no clitóris e já for se encaminhando para a penetração, esteja consciente de que é muito provável que sua parceira não te acompanhe nesta dança maravilhosa de prazer. E você estará perdendo a chance de ser o maestro de um dos eventos mais mágicos do mundo: a orquestra do gozo feminino. 

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    Pais tóxicos vêm disfarçados de pais preocupados http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/07/25/pais-toxicos-vem-disfarcados-de-pais-preocupados/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/07/25/pais-toxicos-vem-disfarcados-de-pais-preocupados/#respond Thu, 25 Jul 2019 07:00:52 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1620

    (iStock)

    A gente fala muito de relacionamento abusivo como se essa dinâmica fosse algo exclusivo de casais. Mas, infelizmente, ela aparece em muitas outras relações. Uma delas tem me chamado a atenção, e acontece no lugar onde, teoricamente, a gente deveria se sentir mais seguro e protegido: na família. 

    E é tão difícil de detectar, tão difícil de traduzir o abuso quando ele vem de pai e mãe. Mas se a gente observar com calma, consegue desenhar direitinho o contorno dele, se disfarçando de preocupação e amor.

    Veja também:

    Sabe aquela mãe ou aquele pai que não quer que você faça nada sozinho? Pode ser apenas sinal de fofura e parceria, mas quando vem acompanhado de falta de confiança na sua capacidade de realização, é indício de uma relação nada saudável. Porque se os pais vivem dizendo que você não vai conseguir sozinho, que você precisa de apoio, que você faz tudo errado e afins, o que temos aí é, na verdade, uma descrença na sua capacidade de ser autônomo. 

    Está cheio de pais assim por aí. Claro que alguns não levam isso ao extremo, mas muitos transformam a relação com os filhos em algo tóxico. E vejam, eles dizem que você não vai conseguir, mas no fundo, eles é que não querem que você consiga. Não querem que os filhos cresçam e sejam independentes. 

    E por quê? Difícil responder, mas é algo que passa por uma imaturidade emocional (que não tem nada a ver com idade, nem com escolaridade). Também tendo a achar que esse tipo de gente tem dificuldade de confiar no laço do amor e acaba achando necessário se amarrar aos descendentes por outras vias. Não é nada legal induzir o filho a acreditar que só vai conseguir sobreviver se for juntinho ao papai e à mamãe.

    É igual ao marido que vive colocando a mulher pra baixo, dizendo que ela não é capaz e que sem ele não conseguirá fazer nada. Só que sai a relação amorosa e entra a hereditária, que pode deixar tudo ainda mais nebuloso. 

    Pai e mãe que ameaçam não ajudar mais os filhos financeiramente ou cortá-lo do testamento, por exemplo, estão neste grupo. Geralmente já tentaram prender os filhos de várias maneiras e como não conseguiram, apelam para o bolso. Golpe baixíssimo de quem não respeita a vontade e a independência da prole. “Se você mudar de cidade não vai ver a cor do meu dinheiro”, uma amiga escutou do pai que já não lhe ajudava financeiramente havia tempos. Desespero de quem não conseguiu ver a filha bater asas e fazer suas próprias escolhas. 

    Quantos pais você conhece que escolheram a profissão dos filhos? Ou que vetarem algumas escolhas? Isso, meus caros, já é um mau sinal. Filho a gente cria pro mundo e com o mundo. A gente cria pra fazer as melhores escolhas e não pra fazer as nossas escolhas.

    E a coisa pode ir bem mais longe. Tá cheio de pai e mãe que não suporta ver o filho ou a filha casar. Isso porque este é um momento crucial, em que o rebento pode formar sua família e, se quiser, mudar o eixo do seu núcleo familiar. Tem pai e mãe que não aguenta. Não raro, fazem de tudo para destruir o casamento, na esperança (tola, mas em muitos casos, efetiva) de que voltem a ser o centro da atenção do filho. Tóxico. 

    Pais tóxicos vêm disfarçados de pais extremamente preocupados. Tão preocupados, que são capazes de passar por cima das vontades do filho porque eles sim é que sabem o que é melhor para os seus. Pais tóxicos são capazes das mais absurdas baixezas para manter seus filhos próximos. E eles não ligam se você está infeliz, até porque, filho infeliz costuma procurar o colinho da mamãe; não é mesmo?

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    Escolho o casamento aberto. Mas só pra mim http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/escolho-o-casamento-aberto-mas-so-pra-mim/ http://liabock.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/escolho-o-casamento-aberto-mas-so-pra-mim/#respond Tue, 23 Jul 2019 07:43:09 +0000 http://liabock.blogosfera.uol.com.br/?p=1594

    (istock)

    Quando as pessoas falam sobre novos formatos de relacionamento, na linha “amor livre” ou “casamento aberto” é sempre com um ar de desconfiança. A maioria de nós não consegue entender como alguém pode viver sabendo que o outro tem (ou pode ter) uma outra relação.

    Mas, quando olho em volta, percebo que a galera vive essa vida desde sempre, só que sem botar no papel. Porque, infelizmente, nós criamos um ideal de casamento que não conseguimos cumprir. Juntamos a ideia do amor eterno com a monogamia e botamos uma meta muito mais ambiciosa do que a turma consegue entregar.

    Veja também:

    E como renegociar os acordos exige que se passe por uma caminho espinhoso, melhor mesmo é não falar sobre o assunto e fazer aquele famoso “casamento aberto só pra mim”. Renegociar exige assumir que não está legal. Renegociar pede humildade, generosidade e peito aberto, coisas que não combinam muito com essa instituição milenar e (falsamente) sólida que é o casamento.

    Não é maluco? A gente quer ficar casado pra sempre, mas não quer olhar para a pele morta que se deposita entre o casal depois de uma boa quantidade de anos.

    É como se falar dos problemas fosse sinal de fracasso. Preferimos fingir que está tudo bem a fazer com que tudo fique bem de verdade.

    Num tempo em que o número de matrimônios só diminui e o de divórcios só cresce, seria muito mais honesto olhar para as questões e propor adaptações que nos salvem da cilada que é fingir que está tudo bem.

    Casais de longa data muitas vezes transam pouco ou brigam muito, por exemplo. Casais de longa data muitas vezes viram empresas de administração do lar e da família. Casais de longa data se perdem nas pequenas queixas que um faz do outro e na vida que gira em torno de desentendimentos. Tudo isso é normal. Bizarro seria se a gente passasse 15, 20, 30, 40 anos junto com alguém sem ter problemas e sem ter que fazer alterações.

    Porque se a gente (enquanto pessoa unitária) muda, o casal, que é feito de duas pessoas unitárias muda mais ainda.

    Longe de mim dizer aqui que abrir o casamento resolve alguma coisa. Mas invejo a sinceridade dos casais que se analisam e buscam saídas para seguir juntos, sem ter que enganar o outro.

    Tenho tido muita preguiça desse formato antigo, em que as pessoas se dizem apaixonadas, monogâmicas e super felizes, mas na primeira oportunidade dão uma puladinha de cerca para desopilar.

    Sejamos honestos, o mundo mudou, mas o formato dos casamentos continua no século XIX. E não me venha com estereótipos tortos que colocam certas mulheres e certos caras na berlinda da desonestidade marital.

    Percebo cada vez mais que quem vê cara não vê traição. Tem uma multidão com pose de santa e pinta de bom rapaz jogando a corneada pra debaixo do tapete e vivendo o tradicional casamento aberto (só pra mim). 

     

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