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Coronavírus: Tinder mandando lavar mão é igual mãe falando pra levar casaco

Universa

12/03/2020 04h00

(iStock)

Existe o coronavírus, que vem se alastrando pelo mundo rapidamente, e existe o pânico do coronavírus, muito mais contagioso e com alta letalidade para economias de terceiro mundo.

É o pânico que tem acelerado o metabolismo dos hipocondríacos, derrubado a venda da cerveja homônima e acabado com os estoques de álcool gel. Mas como as bordas entre o pânico e o vírus ainda estão borradas, a maioria dos cidadãos mete tudo no mesmo saco.

Esse ato tão desesperado quanto compreensível tem cancelado grandes eventos, como o tradicional festival Coachella, e gerado fatos que mais parecem memes – pra citar um só: Naomi Campbell indo viajar. A indumentária dela no avião lembra as usadas pelos médicos no filme "Epidemia". 

Mas para aqueles que já não iam pra lugar nenhum, levam a vida entre o trabalho, os estudos, o bar e os apps de paquera, fica uma pergunta: o que fazer com os matches? Será que é hora de suspender os encontros com pessoas desconhecidas? E as baladas fechadas, tipo inferninho, perfeitas para dar uns beijos e arrumar uma transa? Dúvida. Todo mundo lava as mãos e espirra no cotovelo, mas silencia quando ao beijo na boca.

Alguns apps estão, eles mesmos, mandando mensagens para que as pessoas lavem as mãos e tomem cuidados básicos. Mas, gente, estamos falando de beijo na boca de desconhecidos e a turma me vem com álcool gel? O Tinder mandando lavar a mão é que igual mãe mandando levar o casaquinho quando o filho vai pra rave. Uma coisa meio preocupada, meio pro forma e meio sem noção nenhuma.

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Porque agora é assim: se não disponibilizar o álcool gel ou colocar um cartaz dizendo pra lavar a mão, é negligente. Até o pipoqueiro da frente da estação de trem já pergunta: quer sal, álcool gel acompanha?

Precisa disso? Será que é esse o caminho mesmo? Me soa pouco efetivo. 

Não que seja desimportante conscientizar as pessoas, mas às vezes informar acaba sendo redundante e só empurra para a paranoia. Uma coisa seria os apps de paquera colocando aviso para as pessoas suspenderem os dates, ou eles mesmos adiando os matches para serem revelados só daqui um mês, outra é botar a plaquinha por formalidade.

O que a gente quer saber é: adianta lavar as mãos e depois lamber a pessoa inteira?

Agora imagina a cena de um casal que acaba de se conhecer, aquele clima de primeiro date de app que a gente conhece bem e, de repente, o cara espirra ou a mina tosse? Se a paranoia bate com fungação no metrô, imagina no tête-à-tête pré-rala e rola?

A maioria das pessoas está entre o desespero total com a pandemia e a sensação de que estamos exagerando na dimensão do efeito do vírus. Se você não sofre entre esses dois mundos, parabéns. Seja qual for a sua certeza (o apocalipse ou a marolinha) eu te invejo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

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Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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