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É preciso acabar com o mito da mulher solteira caçadora

Lia Bock

03/03/2020 04h00

(iStock)

"Você fica longe dela." Foi a frase que uma comadre disse pro marido ao serem apresentados a uma amiga que me acompanhava. Uma mulher solteira. A comadre vive um casamento feliz – bem acima de média, aliás –, é gata, aparentemente segura e o casal nunca teve problemas com puladas de cerca. Então me expliquem: por que raios essa frase no primeiro instante em que conheceu a moça? Uma cara bacanérrima, respeitosa e divertida. 

É preciso acabar com o mito de que a mulher solteira é um perigo, que a mulher solteira está caçando e que precisamos proteger nossos pobres homens (ou mulheres) dessas destruidoras de lares. Gente do céu, ninguém aqui é criança, ninguém aqui precisa de bedel e não é a nossa proibição que vai evitar que o parceiro ou parceira arrume um(a) amante.

Tenho uma preguiça gigantesca desse tipo de comportamento que coloca mulheres solteiras como as culpadas pela infidelidade alheia. Como se homens fossem uns coitados seduzidos por esses entes poderosos. 

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Esse tipo de comportamento é agressivo com as mulheres, que muitas vezes estão na delas, solteiras, sim, mas sem querer guerra com ninguém. E além disso passa pano para a macharada, porque no fim da linha tira deles a culpa por traições. Cada vez que dizemo pro sujeito ficar longe "daquela mina" estamos tratando a moça como uma diaba sexual e o cara, como um inocente que pode cair (tadinho) nas graças da outra. Tudo errado. 

O medo de ser ser traído está entre nós. Vivemos numa sociedade que mistura ânsias amorosas do século 21 com ideais românticos do século 19. E isso gera confusões sentimentais, ciúmes e uma série de atitudes deturpadas como essa que persegue e taxa as mulheres solteiras. 

Quando um homem trai sua esposa, a culpa é dele. Quem faltou com o respeito foi ele. Quem merece pito ou pé na bunda é ele. E claro que faz parte ficar com raiva da mulher em questão (ou do homem, aqui não entra juízo de gênero e nem de orientação sexual), não somos os anjos budistas que gostaríamos e nutrir sentimentos pouco nobres pelo pivô da questão é humano. Mas isso não tem nada a ver com pegar todas as mulheres solteiras e jogar na vala das bruxonas sedutoras. 

Aliás, ter amigas solteiras pode ser ótimo para casais. Gente que está com o radar das baladas sempre ligado, que não tem preguiça de se locomover pela cidade e, muitas vezes, traz um bando divertido a reboque. Amigas solteiras deixam nossa vida divertida e movimentada e conseguem até tirar de casa os casais acomodados entre travesseiros, filhos e Netflix.

E, vejam, elas fazem tudo isso sem se jogar em cima de quem está comprometido, até porque não falta gente interessante e solta nesse mundo, não é mesmo?

Me entristeceu a frase da comadre, não só pela amiga solteira julgada a priori como pela lógica social que nos rodeia e faz com que culpemos as mulheres pelo histórico comportamento inadequado masculino.

Nem as casadas são as coitadas recatadas e do lar, nem as solteiras são as periguetes loucas para roubar o marido alheio. Até porque o que tem de marido chato por aí, né, gente? Porque elas iam querer esses boys?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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