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Ser feliz ou gozar? O paradigma do antidepressivo

Lia Bock

14/01/2020 04h00

(iStock)

Um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostrou que a população brasileira é a mais deprimida da América Latina. Ninguém sabe dizer se estamos realmente mais deprimidos ou apenas sendo dopados para aguentar a vida como ela é. Mas o fato é que diversos estudos mostram um aumento constante do consumo de antidepressivos: fala-se em mais de 70% em seis anos

Estaria tudo bem (acho) se, na esteira desse consumo, não estivesse um detalhe nada sutil: um dos principais efeitos colaterais da maioria dos remédios dessa categoria é a diminuição da libido e/ou o desaparecimento do orgasmo. Alguns estudos sugerem que quase 73% das pessoas que tomam esses medicamentos começam a ter problemas com o apetite sexual. 

Quem já tomou antidepressivo sabe que isso não é mito. E muitos aceitam resignados o efeito colateral dos medicamentos porque sabem que sem eles seria bem pior. Até porque deprimido também não tem muita vontade de transar, não é mesmo?

Mas, como estamos falando de um consumo massivo, até criticado por muitos especialistas que falam em "epidemia de diagnóstico", podemos falar no paradigma do antidepressivo. Sim, ele deixa o mundo mais lindo e fácil de engolir. Mas leva com ele a faísca que acende o nosso fogo. Será que vale a pena? Porque uma vida sem tesão, sem sexo e sem gozo pode ser bem sem graça também. 

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Claro que eu não estou falando aqui das pessoas com diagnóstico preciso de depressão que precisam do remédio para seguir vivendo. Mas não sejamos hipócritas, tem muita gente que só tá tristinha ou vendo o mundo meio cinza momentaneamente e recorre aos antidepressivos. A tal da "epidemia de diagnóstico" se refere exatamente ao excesso de prescrição, ao consumo desvirtuado.

Digo isso sem julgamento nenhum. Não sou uma especialista que pode dizer quais os efeitos do uso desses medicamentos por pessoas que não estão tecnicamente deprimidas. E, sejamos honestos, entre o tanto de coisas com as quais uma pessoa pode se intoxicar por aí, os antidepressivos não parecem a pior delas.

Mas voltando ao efeito colateral. A explicação para a diminuição da libido é neurológica: os antidepressivos regulam a transmissão da serotonina, hormônio responsável por enviar sensações de bem-estar ao cérebro. O problema é que, quando os remédios aumentam o nível desse hormônio, diminuem a ativação da dopamina, diretamente ligada à excitação. Vem o bem-estar, vai o tesão. Difícil escolha. 

Algumas pessoas não ligam para a falta de vontade ou para o que chamo de gozo fujão, aquele que chega pertinho, mas acaba sempre escapando e nunca vem. Outras se desesperam quando se percebem, ok, felizinhas, mas meio assexuadas. Num mundo onde somos "heavy users" desses remédios controlados, nos percebemos diante deste difícil paradigma. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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