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Porta dos Fundos: não basta não jogar bomba, é preciso repudiar o ato

Lia Bock

26/12/2019 14h36

Quando uma marca de cerveja fez uma propaganda totalmente equivocada no carnaval há alguns anos, as mulheres que se sentiram ofendidas botaram a boca no trombone, não só boicotaram a marca como fizeram uma pesada campanha contra ela. Boicote é uma forma de manifestação muito justa e se feita em massa pode ser eficaz. 

Digo isso porque acho legítimo as pessoas ficarem incomodadas com o especial de natal "A Primeira Tentação de Cristo", do Porta dos Fundos. Mas isso não dá o direito de jogar bomba e nem de debochar do ataque como se ele fosse justo ou dizer absurdos como: "tiveram o que mereceram", como lemos em muitos dos comentários nos textos que tratam do assunto. 

Quando a gente usa esse tipo de argumento abre uma porteira nefasta para o tal "fazer justiça com as próprias mãos". E sabe o que acontece se todo mundo pensar assim? A barbárie! Hoje, é bomba porque se sentiram ofendidos com o filme, amanhã é tiro porque não gostaram de uma certa lei, depois, atentado porque tal marca apoiou não sei que político e na sequência vem o medo generalizado e uma a guerra que rapidamente se alastra e ninguém mais lembra exatamente porque começou. 

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Por isso é muito importante exercitar o bom senso nessa hora. E se fosse você ou os seus que tivessem sido atacados por algo que disseram ou fizeram?

Gente ofendida ou desgostosa com ação dos outros é o que mais existe no mundo. Não gostam do beijo gay na novela, não gostam da piada do Sílvio Santos, não gostam do fim do horário de verão ou da música que tocaram no réveillon. Isso pra ficar só no Brasil. E não é por isso que a gente sai atacando os outros.

Claro que a maioria de nós jamais faria uma coisa dessas, mas não basta não fazer, é preciso repudiar, é preciso entender a gravidade. E quando lemos um bando de gente usando argumentos na linha do "provocou, agora aguenta" precisamos puxar o freio de mão. 

Aderir à lei do mais forte só nos levará ao caos e onde hoje choram uns e amanhã choram outros. 

E faz o que quando a ofensa nos atinge? Boicota, escreve texto com argumentos, faz manifestação na porta da Netflix, posta vídeo no Youtube, faz abaixo assinado e campanha para que as pessoas cancelem em massa a assinatura do canal do Porta, mas não usa a força e nem diz "bem feito" se alguém o fizer. Amanhã você pode estar do outro lado e nessa guerra perdemos todos que queremos andar em paz pela rua. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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