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Quem agride pregando o bem não vai pro céu

Lia Bock

29/10/2019 04h00

(iStock)

A campanha 40 Dias pela Vida é uma quarentena de reza contra o direito à interrupção da gestação. Importada de católicos do Texas, nos Estados Unidos, a vigília, dizem, visa simular o período de 40 dias de tentação de Jesus no deserto, como narrado pela Bíblia. Até aí, tudo bem, cada um reza pelo que acredita. 

O problema é que a turma de São Paulo escolheu a entrada do hospital Pérola Byington para fazer a sua prece. Exatamente por onde passam, entre outras pessoas, mulheres estupradas que buscam atendimento ginecológico e psicológico pós-traumático. Algumas delas, as que engravidaram como consequência do estupro, com direito garantido pela lei ao aborto. Todas, sem exceção, fragilizadas e esmigalhadas pela violência sofrida. 

Agora, você imagine essas mulheres, grávidas ou não, tendo que lidar com mais esse fator de estresse e, por que não dizer, mais essa violência, não é mesmo? Sim, porque até reza pode ser violenta se usada para intimidar.

Meus amigos, lembrem: Deus não autoriza violência em seu nome, e preceitos religiosos não estão acima do bem e do mal. Essa vigília é o que há de pior no mundo e mostra como seguidores da Bíblia também podem não ter coração.

Eu não estou dizendo que eles não podem rezar, mas que rezem a uma distância segura de pessoas nas quais suas palavras cairão como facada.

Rapidamente, um grupo que defende o direito ao aborto dentro das condições previstas por lei se organizou na mesma calçada. Indignados com a violência cristã, estão fazendo uma barricada para proteger as mulheres que entram e saem do hospital. Linda ação de apoio a quem precisa, mas, convenhamos, a que ponto chegamos! Será que essa gente não enxerga a desumanidade de seus atos? Querem atuar contra o aborto legalizado? Façam vigília na frente do Supremo Tribunal Federal. Esfreguem seus fetos na cara de quem de fato pode mudar alguma coisa. 

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Oprimir mulheres violentadas na porta de um hospital deveria ser tratado como tortura, enquadrado como violência psicológica. 

E digo oprimir com a consciência tranquila porque informação colocada no momento errado e de forma enviesada oprime, sim! Reza mal-intencionada também. 

E o que seria reza mal-intencionada? Aquela que desrespeita pessoas de crenças diferentes, que desconsidera o sofrimento que tais palavras causarão e que coloca preceitos religiosos acima do respeito ao outro.

Essa vigília não traz a palavra de Deus, traz o pior lado do ser humano que se esconde atrás da religião para exercer seu espírito de porco.

Certeza que essas pessoas vão arder no fogo do inferno. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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