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Quando um jovem compartilha nudes de outro, não é brincadeira. É crime!

Lia Bock

26/11/2019 04h00

(iStock)

Quando uma adolescente troca nudes com o crush, ele manda essas fotos para os amigos e a coisa acaba crescendo na internet, na rede escolar e do bairro, é comum que a primeira coisa que as pessoas pensem seja: por que ela fez essas fotos? Por que enviou isso?

Faz parte do comportamento humano questionar os porquês das coisas, principalmente no momento de lamento, mas é muito importante que a gente entenda que socialmente a pergunta precisa ser outra: por que esse garoto passou as fotos dela pra frente? Por que quebrou o acordo que mantinham para a troca de intimidades? Onde estão seus valores? Quem ensinou isso a ele?

É verdade que os jovens são nativos digitais e entendem muito mais do que seus pais das ferramentas e funcionamento dos apps. Mas, como eles não são nativos em ética, é preciso ensiná-los. Por isso, gosto tanto do episódio da série Vítimas Digitais (em que participei com pesquisa e entrevistas) que foi ao ar ontem no GNT. Ele traz um problema que mora no bolso de nossos filhos. Um problema que, com a soma do acesso às tecnologias à falta de valores claros, pode ser explosivo.

Claro que algumas conversas são difíceis de ter com os filhos e a gente prefere adiar. Mas desencanar é ser cúmplice das merdas que eles podem fazer. 

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"Moleques sempre fizeram merda", alguns podem dizer, mas a verdade é que agora eles estão todos a um clique de acabar com a vida de outra pessoa. E mais: estão todos a um clique de se tornarem criminosos. É muito fácil mesmo e é por isso que precisamos trazer o assunto para a mesa de jantar.

Divulgar imagem sem consentimento é crime no Brasil. E, fazendo uma analogia simplista, como todos têm celular, é como se eles andassem com a droga no bolso pensando se vão ou não usar. E, no dia que o ódio correr pelas veias –porque um dia ele sempre corre–, a possibilidade de atos inconsequentes virem à tona é grande. Só jovens que entendem que seus atos têm consequências e que o respeito ao outro é um princípio fundamental conseguirão ter discernimento para não cruzar a linha.

E isso quem passa somos nós, adultos, responsáveis, educadores e tutores de todas as espécies.

Um celular pode ser uma arma na mão de uma criança. Muitas vezes me parece até ser uma temeridade deixar esse acionador de diversas bombas na mão de gente tão imatura. Mas a verdade é que, se a gente deixa, vai ter sim que falar sobre assuntos espinhosos. Vai ter que botar na roda as expressões "respeito digital" e "ética na coletividade". Vamos ter que falar sobre consentimento, privacidade, cumplicidade, acordos velados e nudes.

No episódio da série, Érica é seduzida pelo crush, amigo de longa data do bairro, e acaba trocando nudes com ele. Mas seu interlocutor estava mais interessado na farra do que nas fotos em si e acaba passando isso adiante. Na toada de negação dos atos, do estresse e de muito preconceito, o episódio segue com o desmoronamento da menina e passa a gravidade de onde uma atitude criminosa disfarçada de brincadeira pode chegar. 

Saber preservar o nosso corpo e os corpos que escolheram estar conosco é a base da conversa. Porque não adianta proibir e também não adianta implorar. As ferramentas e as oportunidades estão na mão desses jovens e só muito bom senso, contexto e explicações claras podem ajudar. 

Quando escuto que algumas meninas estão proibindo as amigas de levar celular quando vão nas suas casas, tenho uma misto de alegria (menos celular, mais olho no olho) e de tristeza. Porque a motivação é deturpada: rolou uma "modinha" de filmar as amigas de "brincadeira" e depois mostrar pra outras pessoas.

Pessoal, filmar sem avisar e passar adiante é crime. Pegou a foto que a pessoa mandou e mostrou pra outra pessoa: é crime. Existe uma linha bem marcada entre o excesso de exposição a que estamos nos acostumando e os atos criminosos, não é difícil de explicar. Mas é preciso explicar.

Nossos filhos precisam entender que não é porque fazemos stories de tudo o tempo todo e postamos nossas vidas que podemos fazer isso com o que é dos outros. Você não filma ninguém sem avisar e muito menos compartilha nas redes o corpo de quem não autorizou.

E deixe claro: não é brincadeira. É crime!

Seria tão melhor que as jovens em questão soubessem disso. Seria tão melhor se a gente tivesse coragem de colocar os limites com clareza. E, claro, seria tão melhor se a gente chamasse o moleque de criminoso, e não a menina de vagabunda. 

Para seguir:
Instagram @liabock
Facebook @eulia tulias

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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