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Internet não é lugar para criança andar sozinha

Lia Bock

06/08/2019 04h00

(iStock)

Esta semana meu filho de 10 anos ganhou um celular dos avós. Um clássico. Era só pra ele "usar nas férias", mas óbvio que isso era conversa pra mãe dormir.

"Ernesto está te seguindo no Instagram." Rapidamente ele estava plugado nas redes, onde a maioria dos amigos, os primos e um punhado de crianças da idade dele já estavam.

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Diante deste fato me pus a pensar em como essa iniciação no mundão é precoce. Pra mim, as redes sociais, e a internet de forma geral, não são lugares onde crianças devem circular livremente. Me lembro das vezes em que, espevitada, eu quis acompanhar meus pais em festas, manifestações e eventos quanto era pequena e tive que me contentar com a frase: "Não é coisa pra criança". Ponto. 

Pois é. Pra mim, a internet não é pra criança. O Instagram e o Facebook não são para criança. Claro que há sites, Youtubes e apps específicos pra os pequenos e bem divididos por idade, mas dar um celular e uma rede de wifi para eles é como jogá-los no meio de uma festa muito louca regada a drinks e psicotrópicos. 

Ninguém larga uma criança sozinha numa passeata ou em um estádio de futebol. Então porque raios largamos eles no vasto e imprevisível mundo da web?

Não consigo conter a amargura (e uma pitada de raiva) por aquela primeira família que muniu seu filho ou filha com um smartfone e puxou toda a cambada junto. Quem nunca ouvir "Todo mundo tem. Porque eu não posso ter?". 

Os hightechs que me desculpem, mas não entendo as pessoas que não deixam os filhos irem na padaria sozinhos, mas largam um telefone na mão deles. 

Nunca me esqueço que no impactante filme "A Caça" a origem do problema que acaba com a vida de um professor, do filho dele e desmantela uma comunidade vem de um iPad na mão de uma criança

Conexão por uma tela individual pode levar nossos filhos a lugares tão sombrios quanto uma viela vazia no meio da madrugada, tão nocivos quanto drogas e bebida alcoólica, tão distorcidos quanto uma palestra neonazista. 

Alguns me aconselham a resignação. Outros dizem que é simples, é "só recolher o presente até segunda ordem". Mas não estou falando apenas de mim, estou refletindo sobre nós enquanto sociedade que dá smartfone com internet nas mãos de crianças cada vez menores achando que é "inevitável". 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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