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Série mostra potencial devastador dos crimes digitais sobre as mulheres

Lia Bock

05/11/2019 04h00

Débora Falabella que vive uma das personagens da série "Vítimas Digitais", do GNT

Na semana passada, a deputada americana Katie Hill renunciou ao cargo depois que fotos íntimas suas com outra mulher foram divulgadas na mídia. Segundo Katie, a distribuição das fotos foi arquitetada pelo marido, de quem está se separando. Enquanto isso, no Brasil, outro marido com ego ferido achou que fazer um textão "denunciando" um suposto caso da esposa com o sócio dela aplacaria sua dor. Como ela é sócia de um grande escritório de advocacia, a notícia sacudiu o meio jurídico. 

O que você vê quando depara com essas duas notícias? Se o que chama mais a atenção é o fato de duas mulheres terem casos extraconjugais e uma delas ter fotos íntimas, começamos mal. O que temos aqui, meus caros, são, antes de tudo, duas vítimas que, por motivo de vingança, foram transformadas em "vagabundas".  O que temos aqui são dois casos que, apesar de midiáticos, são a ponta de um iceberg gigantesco que tem um nome: violência digital. Um crime que, pela estrutura machista de nossa sociedade, atinge em cheio as mulheres.

Segundo a ONG Safernet, que trabalha com direitos humanos na internet, de 2017 para 2018 houve um crescimento de mais de 1.600% nas denúncias de violência contra a mulher nas redes. 

E pra quem torce o nariz achando que se não é porrada e tiro, não dá pra chamar de violência, o diretor João Jardim faz um aceno. O seriado "Vítimas Digitais", que estreou nesta segunda (4) às 23h30, no GNT, traz durante sete semanas, toda segunda, histórias que mostram o potencial devastador desse tipo de crime.

Os casos exibidos na série são todos baseados em histórias reais e mostram, antes de tudo, que a violência nunca vem sozinha. E, muitas vezes, o abuso psicológico, a violência física e as ameaças andam de mãos dadas com a divulgação de uma imagem íntima, o sequestro da vida digital e a difamação nas redes. Fruto de uma grande pesquisa, da qual me orgulho de ter feito parte, os casos dão a real dimensão  desse tipo de crime. De todas as mulheres que entrevistamos, não teve uma que superou o ocorrido e estava levando a vida numa boa. Ser escalpelada na web deixa cicatrizes eternas.

Muita gente ainda insiste em separar a vida online da offline, mas escutando as histórias de diversas mulheres vítimas de crimes digitais fica claro que somos uma coisa só. Portanto, ser atacada nas redes é ser ataca na vida. E não existe de "sai do Facebook que acaba". Esses criminosos, na maioria das vezes ex-namorados e ex-maridos, não param enquanto não enxergam a vítima se esfacelar diante de ameaças, exposição e um ciclo que inclui muita dor de cabeça – no trabalho, na família, na rede de amigos e claro, nas redes sociais.

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Ter a vida exposta nas redes e lidar com as ameaças que vêm neste combo têm efeitos psicológicos muito graves. E uma coisa que não ajuda neste processo, claro, é a dificuldade da sociedade em entender a vítima como vítima. Como nos casos citados no começo do texto, antes de serem tratadas como pessoas que estão sofrendo e que tiveram suas vidas invadidas, essas mulheres são vistas como promíscuas ou como descuidadas.

E é isso que a série vem quebrar. Cheia de cenas fortes e com um clima de tensão, a narrativa das sete histórias (cada uma ocupando um episódio) vai sendo entrecortada com a fala de especialistas. Gente como a promotora de Justiça do Estado de São Paulo Gabriela Manssur, que pontua toda a cadeia de violências que essas mulheres sofrem no processo, e como Beatriz Accioly Lins, antropóloga da USP que estuda o comportamento online e mostra os indícios de um potencial criminoso.  Ao todo são 17 especialistas em crimes digitais, direito, psicologia, psiquiatria, comportamento na web e direito das mulheres afiados para, junto com as histórias vividas por atores e atrizes, como Débora Falabella e Marcos Veras, mostrar a gravidade desses crimes.

Assistindo aos episódios é impossível não pensar: e se fosse eu, minha filha ou minha mãe? E isso é importante para que, enquanto sociedade, a gente plante a mudança. Porque, quando a gente sente empatia por essas mulheres, algo já mudou. Quando a gente entende que elas são vítimas, respeita seus sofrimentos e olha para a situação como quem olha para um estupro ou para uma surra, avançamos algumas casas no quesito civilidade. Assista ao teaser da série. Toda segunda, às 23h30 no GNT.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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