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São os tiozinhos que mais se comportam mal no Tinder

Lia Bock

24/10/2019 04h00

(iStock)

Não sou eu que estou dizendo. É Elie Seidman, CEO do Tinder. Em uma entrevista para o jornal inglês The Guardian, o executivo ponderou o que muita gente já vinha sacando na prática: são os homens mais velhos os que mais dão gafes e saem da linha nos encontros de apps de relacionamentos. 

No entanto, a explicação de Elie é bem generosa com os tiozinhos: justifica o mau comportamento –como tratar mulheres mal ou enviar fotos do pinto sem que isso tenha sido solicitado– por esses 'pobres' seres humanos não terem desenvoltura digital. Diz ele que os mais novos não fazem diferenciação entre a persona online e a offline e, por isso, tendem a se policiar da mesma maneira dentro e fora da rede.

Mas será que é só isso?

Pode até ser que os caras se embananem com as ferramentas, mas dizer que eles não têm noção de que no app somos responsáveis por nossos atos me soa um pouco condescendente demais. 

Claro que Elie não quer falar mal de seus principais usuários, porque são exatamente esses homens os que mais usam o Tinder (principalmente a versão paga), mas nós aqui podemos ir um pouco mais longe.

Não acho que esses sujeitos sejam apenas imaturos digitais (digamos). Acho, sim, que trazem em si um machismo tão arraigado que, por onde quer que eles passem, deixam suas pegadas encharcadas de preconceito e soberba. 

São homens que cresceram com a ideia de que a mulher existe para servi-los e que desagradá-las ou agredi-las faz parte do jogo. São homens que enxergam o discurso feminista como uma ameaça e muito provavelmente maltratam suas mães. São homens que querem a mulher magra e depilada, mas cultivam, eles mesmos, a barriga de chope e as cuecas rasgadas. 

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Elie se adianta para dizer que o app tem punido e banido os adeptos de comportamentos duvidosos e faz uma análise quase bucólica do terreno de sua empresa, onde ele vê uma vasta possibilidade de relacionamentos humanos. Mas fico me perguntando se o app (não gamer) que mais lucra no mundo não poderia ir mais longe na conscientização pela igualdade de gênero e na proteção das mulheres que estão sob seu guarda-chuva digital. 

Porque, veja, esses homens não são os desajeitados tiozinhos que não sabem se comportar na web, eles são o topo da cadeia alimentar que vem há séculos pisoteando os demais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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