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Quatro coisas que aprendi com meus quatro filhos durante a quarentena

Lia Bock

10/05/2020 04h00

(iStock)

Nem no meu devaneio mais fantasioso eu havia imaginado que passaria tanto tempo seguido em casa com meus filhos. Já tinha pensado no que faria se tivesse que fugir correndo com os quatro e como agiria se estivéssemos num barco afundando em alto-mar, mas não tinha passado pela minha cabeça que a situação extrema, na verdade, nos trancaria dentro de casa.

Pois foi bem aqui que viemos parar e sem a ajuda da nossa maravilhosa rede de apoio que conta com uma porção de avôs e avós, escolas, tios e amigos. E essa convivência intensa trouxe descobertas interessantes, constrangedoras e realistas.

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Neste glorioso Dia das Mães, em que as marcas vão nos bombardear com vídeos bregas feitos por celular e não vai dar pra juntar a família, divido com vocês quatro coisas que aprendi sobre a criação dos meus quatro filhos.

  • "Não" é uma palavra que traz vários problemas

Quando você está trabalhando, tem duas pilhas imensas de roupa pra lavar, jantar pra fazer, louça suja na pia e lições da escola para coordenar, dizer "não" pode atrapalhar os seus planos – que já são bem ambiciosos. Porque quando você não deixa assistir mais um filme, não deixa comer pipoca doce ou pular o banho, é preciso fazer todo um trabalho póstumo. Seja uma longa conversa explicando as razões, uma bronca devido ao chilique em decorrência da negativa ou até bancar uma consequência mais dura em casos de desrespeito àquele "não" dado em péssima hora. Dizer "não" tem suas consequências e me dei conta de que muitas vezes não vale o esforço. "Posso jogar mais uma hora de videogame?" Pode. "Posso comer na cama?" Pode. "Posso jogar bola na sala?" Pode. Contanto que não exija mais nada de mim neste momento, pode tudo.

  • Ódio é uma forma de amor

É impressionante a capacidade das crianças de detestar os irmãos. Em tempos de quarentena e convivência dobrada, o ódio fraterno parece seguir a mesma curva de contaminação do coronavírus. Gritos, lutas, xingamentos. Tem momentos que minha casa parece um caricato ringue de luta livre. No começo eu me estressava, apartava e fazia um árduo trabalho de mediação. Depois percebi que quanto mais eu mediava, mais eles tretavam e pensei que, talvez, a necessidade deles fosse por atenção. Pois bem, eu dou, mas não pra isso. Quer exercer o amor brigando? Vão em frente. O meu tempo com meus filhos prefiro gastar de outro jeito. A frase "eles que lutem" nunca fez tanto sentido.

  • Ser mãe na quarentena é ser também um restaurante

Criança é um troço ótimo, mas come, né? É café, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e lanche da noite. Fora a sobremesa de cada uma dessas refeições, claro. Não tem despensa que possa com isso. Como aqui em casa são cinco crianças (tenho também uma enteada), dá até vergonha de ir ao supermercado. Pessoal olha torto porque acha que estamos fazendo estoque, mas é só a comida da semana mesmo. É muito feio trancar o armário de comida? Será que existe geladeira com senha? E pior é que você levanta de manhã e sempre tem umas migalhas e potinhos denunciando que alguém precisou de um lanchinho na madrugada.

  • A verdade nem sempre é o melhor caminho

A junção de crianças e quarentena gera uma química sincericida que resulta em perguntas constrangedoramente verdadeiras e cujas respostas valem um milhão de dólares. Na dúvida, não titubeie: minta – ou se faça de desentendida. "Alguém aqui de casa vai morrer?" "Quem fuma vai morrer primeiro?" "Se alguém doente espirrar de cima de um prédio e a gotícula cair aqui no quintal, a gente pega o coronavírus?" "Por que as pessoas estão rindo?" "Por que tem tanta gente na rua?" "A gente nunca mais vai viajar?" "Se a gente fosse rico, ia ser mais fácil, né?" "Então a culpa é dos chineses?" Passa o sal, filho? Obrigada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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