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"Esse trabalho está um lixo": os tipos de chefes na pandemia

Lia Bock

14/05/2020 04h00

(iStock)

O coronavírus está mexendo com todo mundo. Mas tenho a impressão que com chefes está mexendo um pouco mais. Isolamento, home-office, medo de perder o emprego e alguns outros ingredientes, que variam com quantidade de grana na poupança, número de cômodos em casa e quantidade de filhos em volta, também mexem com esses seres que estão no topo da cadeia profissional. No geral, são pessoas que ganham bem, decidem, vetam, elogiam e detonam. Ou seja, aqueles que podem acabar com sua noite de sono, com sua paz interior e, claro, com sua renda. 

Existem os chefes medrosos, que estão acima de tudo, apavorados com a ideia de perderem seus empregos. Geralmente moram numa casa grande e sustentam uma galera e, para não ter que mudar de classe social, estão trabalhando muito mais e revisando cada coisinha para que clientes ou patrões não tenham argumento para reclamar. Invariavelmente passam essa insegurança para seus subordinados e o clima de trabalho fica péssimo. Eles têm tanto medo de perder a renda que não se importam em pegar coronavírus ou botar seus trabalhadores em risco. 

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Há também aqueles chefes que têm certeza que a pandemia é uma ótima oportunidade, seja para vender mais, crescer na empresa ou quem sabe até virar sócio do negócio. São tão otimistas que esquecem que existem milhares de pessoas morrendo lá fora e que nem tudo é sobre lucro, cliques ou ampliação da carteira de clientes. Mas, no fundo, eles têm coração, só estão entorpecidos pela realidade.

A categoria dos escrotos é outra.

Esses são aquele que aproveitam as conversas por zap para queimar colegas e cavar demissões para que, claro, possam galgar algumas posições. São intrigueiros e passam grande parte do dia ocupados em criar o melhor ambiente para que saiam do isolamento num cargo mais alto. Sem escrúpulos, são capazes de detonar colegas afastados e, geralmente, pegam pra si o reconhecimento do trabalho de sua equipe, que rala em dobro, já que, protegidos pelo isolamento, eles fazem o que mais gostam: nada. 

Mas nem tudo é terror (acho). Tem também aqueles chefes sossegadões, que acham que todo mundo deve trabalhar menos pra conseguir dar conta da casa e do trabalho. São supercompreensivos e fazem vista grossa para entregas imperfeitas. Estaria tudo bem se eles fossem o dono da empresa ou se todos seus subordinados tivessem família rica como ele. No fundo, não achariam ruim se fossem demitidos assim, pelo menos, teriam um motivo pra parar de trabalhar e assumir a vida mansa. 

Não tem nenhum chefe legal? Ter tinha, mas acabou. Não tem como ser legal fazendo faxina, lição com criança e o coordenando uma equipe remota, né? Fora o carma que muitos vão levar pra vida devido às demissões de uma galera firmeza pra que a empresa mantivesse seus lucros. 

E vejam, aqui estamos falando só de chefe, porque se a gente entrar no hall dos clientes, o buraco é mais baixo. Tem aqueles do tipo pessoa física que não quer mexer nas reservas para honrar os pagamentos – e dane-se que o serviço já foi feito. Eles conseguem até chorar se for preciso. Tem os do tipo pessoa jurídica que trabalham em grandes corporações e não estão nem aí para os seres humanos se matando de trabalhar do outro lado (sem tempo pra mimimi de pandemia, irmão). E também tem aqueles que fazem um trabalho social lindo, mas não sobreviveriam a um vazamento de reunião do zoom. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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