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Amor e ódio pela Netflix: relatos da quarentena

Lia Bock

05/05/2020 04h00

(iStock)

Quantas vezes a Netflix perguntou a você se ainda "tem alguém assistindo" essa semana? Tenho certeza que o tempo para essa tela escura diminuiu. Dia sim, dia também a provedora de streaming faz essa pergunta aqui em casa. Mas já? Em tempos de isolamento e bares fechados seria gentil eles reverem isso. Detesto me sentir exagerada.

Quem aí também está vivendo uma relação de amor e ódio com a Netflix levanta a mão!

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Tiraram "Os Goonies" do catálogo. Tiraram "Esqueceram de Mim" também. Mas, gente, justo agora que a gente precisa de assunto televisivo com as crianças? E porque raios "Matilda" continua lá? Uma menina genial maltratada pelos pais no nível "chama o conselho tutelar". Nem nos tempos em que a Sessão da Tarde era nossa única opção eu gostava dessa história. Fora que ela gerou o seguinte comentário aqui em casa: "Você é chata que nem eles". Magoei. Pelo menos tiraram também aquele "Festa da Salsichas", um filme infantiloide e absolutamente sexualizado. Um contrassenso.

E Harry Potter, que tem só três filmes? Pessoal, vamos facilitar a vida dos pais! Com o tanto de roupa e louça pra lavar só Harry Potter do 1 ao 8 salva. Um terço da série não serve pra nada, taokey?

Tá bom, estamos em estado de exceção, deixa as crianças assistirem ao que quiserem, contanto que não sejam os filmes do Luccas Neto. Alguém avisa o moço que é melhor colocar uma criança pra fazer o papel de criança? Obrigada. 

Mas você só vê filme infantil, Lia? Não, mas é que a maioria aqui em casa tem menos de 11 anos e somos democráticos. Eu assisti à última temporada de "A Casa de Papel", mas que decepção, quase cometi o crime de recorrer ao fast-forward. Passei todos os episódios pensando em desistir. Esse negócio de que todas as séries precisam ter um milhão de temporadas ainda vai acabar com a gente.

Realmente eu e a Netflix estamos precisando dar um tempo, penso sempre. Mas no dia seguinte lá estou eu zapeando o catálogo novamente, como uma adicta incapaz de largar a tela. Ainda bem que "Nada Ortodoxa" estava lá para nos salvar – sim, porque aqui em casa tela é coisa de casal, esse negócio de cada um na sua série é muito moderno pra nós. 

O nosso gosto bate? Não. Mas a gente se acerta. Um dia é documentário e no outro qualquer uma das mil e uma possibilidades de guerra. E ainda bem que tem a aba dos "independentes" pra nos salvar. Bom, falta um pouco de sacanagem, é verdade, aquele filminho que risca o fósforo, sabe? Tem um ou outro perdido aqui e ali, mas vai da sorte na roleta do algoritmo eles aparecerem. Podiam organizar isso pra nós. Em tempos de libido em baixa, um empurrãozinho não faz mal a ninguém.

Hoje eu juro que vou ler um livro.

Mentira. Depois de ler as notícias, escutar as boçalidades do presidente e cair em depressão, só uma lavagem cerebral na Netflix salva. Aliás, recomendo demais o "Ele Está de Volta", um mockumentary (meio documentário, meio ficção) alemão de 2015 que ilustra a perversidade do nacionalismo autoritário e mostra como Hitler ainda está entre nós. É daqueles que faz você rir e depois chorar. Combina com a montanha-russa de sentimentos que é um clássico atualmente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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