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Foi durante o isolamento, na quarentena, que Deus fez a tela

Lia Bock

09/04/2020 04h00

Foto: Getty

Foi numa quinta-feira de frio e chuva, durante uma pandemia de proporções mundiais e sob um isolamento nunca antes registrado, que Deus fez a tela. Nunca televisões, iPads e smartphones na mão das crianças fizeram tanto sentido. 

Alguma coisa precisava acalmar, calar e ocupar as crianças. Essa coisa não poderia ser movida a energia humana e nem botar as crianças em risco. Também não poderia atrapalhar a reunião para decidir os próximos meses da empresa. Tentamos o Uno, jogo que podem jogar sozinhos, mas não durou muito, precisavam de um juiz. Tentamos as canetinhas do trabalho do papai que costumam fazer os olhos brilharem, mas em 20 minutos tinham pintado todas as folhas disponíveis. Precisávamos algo que durasse mais, muito mais. De preferência a quarentena toda. 

Harry Potter do 1 ao 8 garantiu mais de 16 horas de paz e concentração. Não de uma vez, claro, mas foi o suficientes para percebermos que qualquer regra relacionada a tela acabava de ser revogada aqui em casa. 

E como aqui trabalhamos com muitas crianças (são 5 quando estão todos) nem sempre o gosto pelos filmes e programas batem. Tem a turma do Pocoyo, o grupo dos youtubers de game e o das princesas, claro. Como fazer com que todos estejam hipnotizados aos mesmo tempo? Elementar meu caro Watson: diversificação de telas. Enquanto uns assistem ao filme na TV os outros se ocupam no celular e assim alternadamente sempre que necessário. 

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"Posso baixar esse jogo?". Pode! "Posso assistir o filme do Lucas Neto que você detesta?". Pode! "Posso jogar o jogo assistindo?". Pode! Contanto que não peçam nada pra comer neste período e só me chamem em casa do vida ou morte, pode. 

Vão os princípios e vem a paz.

Criança é bom, mas come muito e reclama muito, não é mesmo? Quando achei que seria OK ter 5 filhos, jamais contei com a possibilidade de, um dia, ficar trancada com todos eles em casa. Eu já tinha pensado em ter que fugir com eles embaixo do braço e já tinha pensado em como salvar todos de uma vez em um naufrágio, mas não tinha passado pela minha cabeça uma quarentena sem a rede de apoio, que nosso caso inclui a escola e muitos avôs e avós atuantes. 

Quando tive que lidar com o problema ele já estava instalado. Já não tinha aula e nem o dia do avós. E foi aí que Deus fez a tela. Aquela contra a qual travei duras batalhas ao longos dos últimos 11 anos. Aquela com quem tive preconceito e que amaldiçoei sem dó. Aquela que ameacei cortar se "não fosse já pro banho". Aquela.

O mundo dá voltas. Agora cá estou eu, ajoelhada frente aos gadgets que possuímos. Não chego a mandá-los assistir tv (ainda!), mas espero ansiosa pelo momento em que tenham a tranquilizadora ideia de ligar a televisão. 

Culpa? Nada. A gente só tem culpa quando tem tempo. Tenho chegado à conclusão que esse é um sentimento exclusivo de privilegiados que podem questionar o modus operandi. Quando o mundo está posto como um monolito e nos resta escala-lo o máximo que sentimos é cansaço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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