PUBLICIDADE

Topo

Máscaras de R$600? Qual o problema de esbanjar dinheiro em plena pandemia

Lia Bock

23/04/2020 04h00

Foto: iStock

O que cada um faz com seu dinheiro é um problema pessoal e intransferível. Mas, a partir do momento em que as pessoas esbanjam suas compras e seu modo de vida nas redes, estão abertas a análises alheias. 

Pois bem, li a reportagem sobre o estilista que está fazendo adereços para máscaras de proteção contra o coronavírus e fiquei pensando de onde vinha meu incômodo. Busquei outras reportagens sobre o mesmo tema e minha ficha caiu.

Veja também

O que me pegou foi que a produção e venda do adereço não estava de maneira nenhuma ligada a alguma ação de ajuda aos mais necessitados. E isso mudaria tudo.

O que caiu como um incômodo com o esbanjamento de recursos geraria uma reação totalmente diferente, talvez até um sorriso pela boa ideia. Sim, porque o que agora é apenas uma gourmetização da pandemia passaria a ser uma forma de transferir recursos para as pessoas mais necessitadas. 

Talvez as máscaras pudessem ser vendidas por um preço ainda mais alto – e mesmo assim vendessem muito mais. Porque (ainda bem) tem bastante gente disposta a ajudar seus conterrâneos menos favorecidos. 

Mas o sujeito não pode fazer máscaras pra ganhar dinheiro? As pessoas abastadas não podem comprar o que querem? Claro que podem, mas em tempos de tanta desgraça me soa de mau gosto esbanjar sem propósito. 

Porque no fim da linha essa questão da gourmetização da máscara e da pandemia, de forma geral, é um aceno da nossa desigualdade. É o gigante abismo que há entre a parte mais pobre da população, que está sem recursos para comprar as refeições da família, e a turma do andar de cima, que está isolada com conforto, chocolate importado e fazendo compras online para desanuviar. 

Nesse sentido, essa pode ser uma oportunidade, um momento para pensarmos sobre a desigualdade que nos separa e o que podemos fazer com ela. Porque é ela que dificulta ações em massa mais efetivas, decisões coletivas que possam ser cumpridas por todos para que consigamos, coletivamente, vencer a pandemia. Porque precisamos sempre lembrar que é bem mais fácil para quem tem poupança passar um ou dois meses sem sair de casa, assim como é mais fácil para quem tem água encanada lavar as mãos. 

Não estou dizendo que a máscara gourmetizada é a culpada pela desigualdade: ela é apenas uma das manifestações dessa realidade. E é sobre isso que a gente deve pensar agora.

Se tem uma oportunidade que uma pandemia nos traz é justamente a de rever o que a gente vinha fazendo de errado e como podemos mudar a direção do nosso barco. Um país mais justo é um país mais seguro e mais gentil. Essa é a hora de entendermos que, se cada um perde um pouco, talvez ninguém perca tudo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

Blog da Lia Bock