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Nesta quarentena, eles venceram: o triunfo dos pelos!

Lia Bock

07/04/2020 04h00

(iStock)

Foi devagar que eles foram colocando a carinha de fora. Ninguém deu muita bola, afinal, estamos acostumadas com esse surgir insistente dos pelos. Eles vêm e, antes que se tornem muito vistosos, a gente vai lá e arranca. É sempre assim (ao menos comigo).

Mas, como numas férias de inverno sem muita gente em volta, deixamos que eles vissem a luz do sol mais tempo do que estão acostumados. Só que as férias não acabaram, as reuniões só pegam o rosto e daí, claro, bateu uma preguiça diferente, nova, de tirá-los. Tinha uma lâmina no banheiro e a pinça também estava por ali, mas com tanta coisa pra fazer, deixa eles, né?

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E assim, os pelos foram ficando, como há muito tempo não acontecia. Na perna, na sobrancelha, na virilha, na axila, no dedão do pé. 

As solteiras quarentenadas foram as pioneiras, claro. Tanto home office pra fazer, tanta louça pra lavar, ninguém pra julgar: ficou fácil deixar os pelos florescerem sem dó. Mas, verdade seja dita, ninguém está em lua de mel durante o isolamento. Quem tem filhos está subindo pelas paredes e mal consegue fazer xixi, quiçá ligar pra se os pentelhos estão saindo pra fora durante a hora de sol semanal na varanda. E mesmo quem está trancado em casal sem crianças não está, convenhamos, exatamente num momento de muito deleite corporal. Terreno livre para os pelos.

E, assim, eles foram triunfando, insolentes, como nunca deixaram de ser. Os pelos foram se impondo como a natureza que avança sobre aquelas cidades desertas típicas de filmes sobre o iminente fim da humanidade.

Eles cresceram fortes para mostrar que, por mais que a gente insista em negá-los e se acostume com os rituais que os exterminam, no fim, no caos, no isolamento e na urgência de coisas tão mais importantes, os pelos viram detalhes e percebemos como nossos hábitos e incômodos são questão de referência.

O mesmo aconteceu com os cabelos brancos. Quem ainda não tinha tido coragem de deixar o grisalho dominar, ganhou a chance de fazer isso sem que o mundo lá fora acompanhe. É uma oportunidade única de olharmos para nós mesmas sem retoques.

Tem gente que acha que isso é sinal de desleixo. Discordo. Pode ser apenas uma maneira de a gente gastar tempo com o que realmente importa agora e olhar para nós mesmas com outros olhos. Talvez com menos cobrança, menos necessidade de se adequar ou de parecer uma coisa que não somos. 

Talvez esse seja um bom momento pra gente questionar a paranoia por depilação. movimento que já vem sendo defendido por algumas mulheres. Não que, de uma hora para a outra, passemos a adorar nossos pelos. Mas quem sabe não seja uma boa oportunidade para ter uma relação mais saudável com eles?

Sobre a autora

Hoje comentarista na CNN Brasil e editora da plataforma Hysteria, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e também colunista da revista "Crescer".

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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