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Lia Bock

Lia Bock

Histórico

Ser mãe foi a melhor coisa que me aconteceu. E a pior também

Universa

09/08/2019 04h00

Miá Mello em cena Foto: Divulgação

Hoje já sabemos que o conceito "boa mãe" é tão elástico quanto questionável e que a felicidade plena na maternidade só existe no Instagram. Mesmo assim, ainda não temos coragem de dar os tons exatos da vida materna. Parece que falar das dores nos tira estrelinhas ou pior, faz com que nosso amor pelos filhos seja questionado.

É por isso que a peça "Mãe fora da caixa" (em cartaz no Rio de Janeiro) de Miá Mello mexe tanto com a plateia. E quando digo mexe quero dizer que faz um reboliço. Tem gente que soluça na identificação das dores e na sequência gargalha solto com as piadas de timing preciso.

Eu diria que a peça está para as mães de filhos pequenos assim como a "Homens são de marte… é pra lá que eu vou" esteve para as mulheres solteiras. Ou seja, tem um potencial viral gigante porque faz uma identificação rápida no melhor estilo sincericídio. Lembrando que a peça de Mônica Martelli levou 2,5 milhões de espectadores ao teatro, depois foi para o cinema e para a televisão.

Isso porque no monólogo Miá finca o dedo em verdades. Baseado no livro de mesmo nome da escritora Thais Vilarinho, a peça fala de culpa, de privação de sono, da solidão, do tal amor incondicional, de sexo, da sogra (etc), tudo com muito humor e acidez.

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Pra quem está com criança de menos de dois anos em casa (tipo eu! minhas gêmeas têm 1 ano) é como se tudo que quiséssemos dizer fosse jogado do alto de um prédio na cabeça do mundo. Miá diz o que a gente pensa e sistematiza umas outras coisas que a gente nem sabe que estava pensando.

É impossível não reviver fatos e causos de nossas próprias vidas enquanto Miá atravessa o palco catarticamente liberando sentimentos que as mães não estão autorizadas a sentir. Tristeza, raiva, dor, incômodo, solidão. Sim ser mãe é a melhor coisa do mundo, mas tem dias em que pode parecer a pior coisa que te aconteceu. E tudo bem. Lá vem Miá com alguma gracinha naturalizar o que a sociedade ainda deixa na caixa do "indizível".

Porque ainda precisamos quebrar a casca da mãe perfeita, do maior amor do mundo e da alegria plena para cutucar o que há por dentro das mães recém-nascidas. Precisamos que se escreva em letras garrafais que há muito mais coisas entre a mãe e seus filhos do que reza a cartilha do Instagram ou os cursinhos da maternidade.

E o mais importante, é bonito de ver como Miá (ao lado da diretora Joana Lebreiro, da escritora Cláudia Gomes e do produtor Pablo Sanábio) consegue ir tão fundo mantendo a magia e a leveza teatral. "Mãe fora da caixa" não é uma aula e nem uma bronca, é uma diversão, um descarrego e uma atualização do software materno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.