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Denúncia de Alexandre Frota é, na verdade, imaturidade digital

Lia Bock

05/12/2019 04h00

O deputado federal Alexandre Frota (Pedro Ladeira/Folhapress)

Depois que as redes sociais entraram em nossas vidas, nossas relações problemáticas ganharam outro status. Não é de hoje que vemos gente usando essa praça pública online para se vingar, achacar e ameaçar pessoas.

Vai do marido traído que resolve expor a mulher nas redes à moça que foi enganada por um rapaz casado e jogou a história no mundo, passando, claro, pelo deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), que postou em suas redes ter flagrado uma colega usando uma sala do Congresso para se pegar com um sujeito. 

A primeira vez em que Frota falou disso foi há quase um mês e nesta quarta (4) voltou ao assunto, dando enormes indícios de quem seria a mulher, mas sem citar o nome. Em seus tuites, ele faz um esforço para desmerecê-la e claramente quer lhe causar danos. Não sabemos quais as motivações do deputado para ter tomado essa atitude, mas, seja ela vingança ou qualquer outro motivo torpe, fica a pergunta: precisa disso?

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É claro que usar uma sala do Congresso para transar não é algo republicano e não precisamos nem entrar na discussão porque concordamos todos que é errado (certo?). Mas será que a "denúncia" nas redes sociais é o melhor caminho? A mesma pergunta pode ser feita para alguém que descobriu a traição do cônjuge e correu para botar a boca no trombone virtual.

Coloco a palavra denúncia entre aspas porque nem sempre ela cabe neste tipo de situação. Caberia se o texto postado pelo deputado estivesse endereçado ao órgão capaz de julgar a ação da colega e puni-la, mas, como está nas aberto nas redes sociais, perde esse caráter e vira uma simples peça de vingança ou tortura. 

Sei que muita gente vai dizer "ninguém mandou fazer coisa errada, agora aguenta". Mas essa é uma visão simplista e punitivista que traz uma certa vibração de justiça com as próprias mãos e que não nos leva a lugar nenhum.

E, vejam, isso é muito diferente de uma pessoa que já buscou justiça em diversos fóruns, que já tentou expor um problema ou um crime para as autoridades cabíveis e não teve retorno, e, por isso, resolve recorrer às redes.  Lembro aqui do caso de Su Tonani, figurinista que denunciou o ator José Mayer por assédio sexual algumas vezes dentro da própria TV Globo e tentou com afinco que a emissora tomasse uma providência. Foi depois de ver que suas queixas não iriam a lugar nenhum que ela recorreu à "praça pública". Dá pra sacar a diferença?

Usar as redes para ameaçar, chantagear ou constranger alguém é algo muito delicado e precisamos ter isso em mente até mesmo quando, no calor de uma traição, somos impelidos a expor "tudo pra todo mundo". Não é porque a pessoa falhou com a gente que temos o direito de acabar com a vida dela e mais: isso não vai ser bom pra nenhum dos envolvidos. 

Não estou defendendo aqui as pessoas que são desonestas ou levam a vida correndo riscos, mas sei do que o tribunal da internet é capaz. Quando jogamos alguma coisa aqui, não sabemos pra onde, nem como e nem com quem ela vai. Não sabemos o que outras pessoas farão com essa informação e nem se isso disparará a ira de alguém, por exemplo. 

Precisamos urgentemente amadurecer nossa relação com as redes sociais. Precisamos entender seu potencial destrutivo para usá-las com cada vez mais parcimônia e sabedoria. Porque um clique pode ser uma bomba e bombas matam tudo que está em volta, inclusive nós mesmos, se estivermos perto demais. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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