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Por que as pessoas fuçam a vida online dos cônjuges?

Lia Bock

09/07/2019 04h48

 

iStock

Quantos relacionamentos que você conhece chegaram ao fim depois que mensagens de WhatsApp foram descobertas? Quantos casamentos você já viu acabar no acessar de uma conta de e-mail?

Desde que a tecnologia aterrissou em nossas vidas, a privacidade no seio familiar passou a ser uma questão. O mundo, os apps de paquera, a amante, um flertezinho aqui e outro ali. De repente tudo começou a circular no nosso bolso.

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Se antes os malandros pagavam o motel em dinheiro, utilizavam o orelhão e pronto, estava mantido o segredo, hoje a coisa é bem mais complexa. É como se levássemos a nota do motel na bolsa pra sempre e, talvez, também uma foto de recordação.

A facilidade se tornou testemunha de nossos erros e tropeços e é ela que nos faz ajoelhar diante da vergonha de sermos pegos.

Até aí, tudo bem. É do jogo da vida moderna. Cada um escolhe seu jeito de viver.

A questão que me traz hoje aqui é por que as pessoas procuram por essas informações? Por que investigamos os gadgets dos parceiros, mesmo sabendo que ali, talvez, more o esfacelamento de nosso coração?

Muita gente diz que a vontade de saber é mais forte do que o instinto de autopreservação. Triste e desnecessária realidade.

Quando as pessoas invadem o celular ou o computador alheio estão em sua maioria movidas pela necessidade de confirmar uma suspeita. Suspeita essa que geralmente vem do fato de não estarem felizes, estarem se sentindo pouco amadas, pouco procuradas sexualmente e por aí vai.

Sejamos realistas, a gente investiga porque quer uma boa justificativa para o que estamos sentindo. Muitas vezes queremos a pedra que vai sacramentar a separação. Falta, solidão, desrespeito, distância, trato rude: são muitos os sentimentos que nos corroem e logo nos levam às suspeitas de traição. E ok suspeitar, mas daí a tirar a prova deveriam ser outros quinhentos.

E a pergunta de um milhão de dólares é: por que precisamos de prova para colocar em prática uma conversa definitiva sobre a relação? Por que precisamos saber se o outro tem uma amante para achar justas as nossas queixas?

Estar sentindo já deve ser suficiente para que o outro nos escute. Estar sentindo deve ser suficiente para que achemos melhor terminar a relação. Estar sentindo deveria ser suficiente pra tudo. Mas não, algo em nossa sociedade nos ensina que sentir apenas não basta, é preciso ter um bom motivo. Será?

Muitas vezes podemos sentir coisas e elas estarem ligadas apenas a nós mesmos – e isso pode bastar para querer mudança. Podemos sentir coisas e achar que a culpa é do outro, que não está se dedicando o suficiente. E isso deveria bastar para que numa conversa sincera tentemos mudar o cenário. Mas não, a gente acha que se não tem um bom motivo, se não tem prova, vale menos.

Grande erro.

Invadir a vida online do outro além de desonesto é altamente destruidor. Já vi grandes almas corroerem no fogo do inferno depois de fuçarem na intimidade alheia.

E nem estou falando da culpa por ter cruzado uma linha importante, falo da enorme dor causada por entranhas escancaradas. A dor de quem não pode "dever" ou "desler".

Tá certo que diante das provas temos tudo que precisamos para partir marchando, mas a que preço? Custa nossa saúde. Custa nossa crença no ser humano. Custam anos sem conseguir se entregar novamente. Será que vale a pena? Tudo isso pra irmos pra onde (geralmente) já estávamos indo?

É preciso confiar no nosso coração e deixar de lado essa moda de que precisa de prova pra botar a relação na berlinda. O que acaba com um casamento não é a amante ou o perfil no Tinder, é a falta de amor, de respeito e de dedicação que levaram o outro até estes lugares. E a falta a gente sente, não precisa provar.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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