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Lia Bock

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Encontre o erro na frase: Isis Valverde deixa o filho com o marido

Lia Bock

26/09/2019 04h00

Isis Valverde em Paris (Reprodução Instagram)

Quantos erros há na chamada da reportagem: "Isis Valverde deixa o filho, Rael, com o marido no Rio para ir ao desfile da Dior em Paris"?

Numa lida rápida pode até parecer que o título acima não tem nada demais. Mas há nele muito mais preconceito e machismo do que reza nossa vã filosofia. 

Primeiro, porque ela está lá a trabalho e, num ato falho do editor, ficou parecendo que a atriz está passeando. E não que tivesse problema em ela deixar o filho com o marido para ir passear, não é mesmo? Mas não foi o que aconteceu. O que temos é uma mulher na batalha profissional para pagar os boletos e isso não ficou claro.

E daí vem a pergunta: por que raios a "notícia" é o fato de ela ter deixado o filho com o pai ao invés de ser o trabalho para a gigante da moda em Paris? Baita desserviço da imprensa puxar a história para esse lado. 

Tem gente levando com bom humor e dizendo que "Isis deixa o filho com o marido" é o novo "Caetano estaciona no Leblon". Mas, infelizmente, não é. O caso de Caetano nos remete apenas ao vazio das notícias de celebridade, enquanto o caso de Isis nos lembra que somos uma sociedade que ainda estranha a mãe "largar" o filho com o pai. 

E não venham me dizer que é mimimi. Quantas vezes vocês leram notícias sobre pais que deixam o filho com a mãe para fazer uma viagem de trabalho? Isso mostra que nossa sociedade ainda estranha a nova posição da mulher e a nova posição do homem. Um lugar onde ambos são mais iguais e podem tanto priorizar a família quanto o trabalho, de preferência alternando quem faz o quê. 

Aqui vale lembrar que, no Brasil, 5,5 milhões  de crianças não têm nem o nome do pai no registro de nascimento (IBGE) e pouco se fala sobre o assunto. Porque estranho mesmo é mãe deixar o filho com o pai, não é mesmo? Como se ser pai fosse facultativo e ser mãe fosse compulsório. Grave erro.

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Pode parecer preciosismo a implicância com o infeliz título da reportagem, mas é pontuando os pequenos machismos do nosso dia a dia que a gente dá o primeiro passo para a igualdade. Reconhecer que somos uma sociedade que joga toda a responsabilidade da família em cima da mulher é importante para que mudemos. Reconhecer que somos, sim, uma sociedade que estranha quando o pai cuida do filho é fundamental para que exercitemos a mudança de mindset

Deixo aqui a minha sugestão de título para os colegas: "Isis Valverde arrasa em Paris e prova que dá pra ser mãe e profissional bem sucedida ao mesmo tempo". Verdade que ter que provar isso em pleno 2019 me cansa um pouco, mas a estranheza ao fato de um pai cuidar do filho me cansa bem mais. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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