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Lia Bock

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Crivella e o projeto (falho) de nação que está em curso

Lia Bock

09/09/2019 13h17

(iStock)

De um lado o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, e a polícia enviada para recolher a história em quadrinhos que trazia um beijo gay. Do outro, o Supremo Tribunal Federal, Felipe Neto, a Folha de S. Paulo, Caetano Veloso, uma infinidade de artistas e, principalmente, uma massa que pode até estar apavorada com o caminho que a sociedade brasileira está tomando, mas mostrou que não está disposta a assistir ao regresso de braços cruzados. 

Gente que sabe como foi difícil chegar até aqui. Como foi espinhoso e cheio de obstáculos trazer para a superfície uma diversidade que sempre existiu. Porque não é que hoje tem mais gays no mundo, o que acontece é que as pessoas podem (conseguem e querem) dizer que são gays. 

Nesse sentido, a ação do prefeito carioca não vem para "evitar que crianças vejam um beijo gay", o que ele quer é calar toda uma população, literalmente mandar de volta pro armário quem há poucos anos pode viver sua verdade e amar de acordo com seu coração. 

O que está sendo colocado em prática (e não apenas no Rio de Janeiro) é um projeto de nação autoritária, com preceitos religiosos tacanhos e que rejeita avanços consolidados no mundo todo. 

Eu não lembro do ano, mas lembro da alegria que foi começar a ver toda a turma LGBT+ andando de mãos dadas e trocando carinho na rua. Dentro de casa e nas festas era tudo liberado, claro, mas na rua "era perigoso". E, no começo, não foram poucos os gays agredidos por viverem suas vidas em público. Os caretas enlouqueceram ao ver que tinha espaço para outras pessoas no mundo que não eles.

Tudo isso não faz muito tempo, mas foi o suficiente para o mundo mudar. A começar pela sigla: em cerca de 15 anos, fomos de GLS à LGBTQI+. Nesses mesmos anos, atores e atrizes homossexuais puderam, finalmente, revelar ao mundo com quem de fato eram casados. Uma cantora popular e famosa por arrastar o Carnaval na Bahia puxou a turba. Um ator já com seus cinquenta e tantos anos abriu sua casa e do marido para uma revista de celebridades. Companheiros há anos, nunca tinham se deixado fotografar juntos. Tinham medo. Medo de perder trabalhos, patrocínios e fãs. E logo os casamentos de celebridades gays ganharam os sites e as revistas de fofoca.

Não era uma epidemia gay, apenas a tal distribuição de respeito pra quem sempre esteve ali.

Gente, foi ontem que tudo isso aconteceu. Uma brisa de liberdade que não faz ninguém ser gay, mas respeita quem é. Finalmente evoluímos. Desmembramos a palavra respeito e tentamos distribuir as porções igualmente para todos. Ainda estamos neste percurso.

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E o que estamos assistindo agora, no auge de 2019, é à ira daqueles que sempre viveram sentados em seus tronos determinando o que pode e o que não pode sob um distorcido conceito de respeito. "É preciso respeitar a família, beijo gay não pode", bradam como sempre bradaram sem pensar que as famílias gays também querem um naco desse tal respeito.

"Não tenho nada contra gays e lésbicas, contanto que não se beijem em público": esse argumento é tão velho quanto internet discada. Nós viemos exatamente desse lugar onde os homossexuais deveriam "respeitar os nossos filhos", mas ninguém se preocupava em respeitar os homossexuais. E é pra lá que essa turma quer que voltemos. É pra lá que eles acham que podem nos varrer com facilidade.

Acontece que evolução é uma coisa muito poderosa e, num mundo altamente conectado, não vai ser tão simples andar pra trás. Sei muito bem que isso é possível. Longe de mim desafiar a truculência eleita com voto popular. Sei que, com sangue derramado, dá pra voltar séculos no tempo. Mas o que quero dizer é que não vai ser simplinho, não vai ser indolor, não vai ser na calada da noite que as conquistas serão recolhidas.

O que ficou claro com toda essa pataquada do Crivella é que tem muita gente disposta a deitar no chão diante dos tanques de guerra ignorantes. Tem gente com dinheiro, gente com poder e com a faca nos dentes. Pessoas que acabaram de assistir ao filme "Bacurau" e estão levemente entorpecidas pela necessidade de manter a integridade do vilarejo. Haja o que houver.

Para seguir no Instagram: @liabock

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.