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Lia Bock

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Amanhã é o Dia do Orgasmo. E o que você, homem, ganha com isso?

Lia Bock

30/07/2019 04h13

(iStock)

A gente pode simplesmente revirar os olhos e fazer cara de preguiça pra mais um dia de alguma coisa que deveria ser celebrada todos os dias. Mas sendo o orgasmo essa coisa tão maravilhosa e misteriosa, acho que vale a reflexão. A saber, o dia 31 de julho é considerado mundialmente o Dia do Orgasmo.  

O dado que me move hoje é o que mostra que de 20 a 50% das mulheres não chegam a gozar nas relações sexuais. Isso é triste e tem a ver com todos nós, homens e mulheres. Tem a ver com uma cultura do sexo que privilegia o prazer masculino e com anos de repressão à sexualidade feminina. Sim, hoje eu vou tratar do sexo heteronormativo, aquele que tem mais questões a serem desvendadas. 

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Porque diferentemente do que algumas pessoas pensam, toda mulher pode sim chegar ao orgasmo, basta investigação, dedicação e vontade. E não tem milagre: se transar como manda a cartilha da pornografia mainstream, o ápice feminino fica mais difícil e mais distante. E o que seria essa cartilha? Pouca estimulação do clitóris, preliminar curta ou inexistente e uma certa violência bate-estaca que para a maioria das mulheres não leva a lugar nenhum. Tudo que vemos nos filmes pornôs onde as gatas fingem estar morrendo de prazer, mas é tudo encenação. Ou vocês acham mesmo que a mulher goza ao sentir o jato de gozo masculino na cara?

Uma coisa importante para começar essa conversa é saber se a sua parceira gozou ou não. "Ah, mas eu fico na dúvida". "Ela deu um gemido mais alto, acho que rolou". Pois saia do achismo e experimente perguntar. Clareza e sinceridade são libertadores nessa hora. E diferente do que pintam os filmes eróticos, a conversa é fundamental para o prazer a dois. Saber o que o outro gosta não precisa ser fruto de uma investigação puramente empírica. Pode vir também de um bom papo nu, pós-sexo (e pré um próximo sexo ainda melhor. That's all about!). 

As mulheres precisam se libertar de um certo medo de decepcionar (que faz com que muitas vezes finjam o orgasmo) e os  parceiros precisam se dedicar à causa. Experimentar, perguntar, observar, ousar. O prazer feminino é de fato muito mais misterioso do que o masculino, que de forma geral, se resume a tesão, fricção e velocidade. Pra mulher, não. Há várias outras coisas neste percurso e o mais louco é que num dia o caminho pode ser um e no outro, para a mesma mulher, pode ser diferente. O clitóris é um órgão curioso, que cresce, se esconde sob a pele e às vezes está mais pra cá ou mais pra lá. 

É por isso que se conhecer, se tocar e experimentar o orgasmo sozinha usando os dedos ou o vibrador é importante. Assim, a gente percebe as variações do nosso corpo e aprende os caminhos que nos levam ao ápice. Se a gente não souber como chegar lá, não tem como exigir que o parceiro o faça isso sozinho. 

Para casais estáveis, recomendo demais o uso do vibrador a dois, com o cara só observando. Repare onde, como e com que intensidade ela usa o objeto vibrante. Repare nos sons que ela faz quando está com mais tesão e o que acontece (no rosto, nos seios, na musculatura da vagina) quando ela goza. Essa observação,além de ser deliciosa, desvenda um monte de mistérios que muitas vezes no meio da pegação ficam escondidos.

Outro ponto importante é o manuseio sem aparelhos. Tem de saber tocar o clitóris, galera! Tem que saber se a parceira gosta de mais pressão ou menos pressão. Tem que saber se ela gosta da pontinha de um dedo só, num toque suave, ou vários dedos cutucando tudo de forma mais geral. Tem que saber se ela gosta de lambidas suaves ou sucção intensa. E tem que nascer sabendo? Claro que não! Até porque isso muda de uma mulher pra outra. É preciso descobrir, perguntar e observar o que cada uma curte. 

E daí, vocês, homens, que têm esse gozo tão simples e de fácil acesso, podem dizer: "nossa, mais que difícil!". Sim, meus amores, é difícil mas é maravilhoso! É como uma comida dos deuses que precisa de dias para ficar pronta. É como um quadro lindo que precisa de meses para ser pintado. É como uma viagem maravilhosa que precisa ser planejada com antecedência! 

O importante aqui é ter vontade de dar prazer pro outro, é achar lindo ver o tesão transbordar do corpo. Porque sem essa vontade, vai ficar tudo muito complicado mesmo. 

Então, da próxima vez que você der duas cutucadinhas no clitóris e já for se encaminhando para a penetração, esteja consciente de que é muito provável que sua parceira não te acompanhe nesta dança maravilhosa de prazer. E você estará perdendo a chance de ser o maestro de um dos eventos mais mágicos do mundo: a orquestra do gozo feminino. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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