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Despedidas que não puderam ser dadas às vítimas: a nova função do Facebook

Lia Bock

19/05/2020 04h00

(iStock)

Não se trata de nenhum aprimoramento para facilitar a navegabilidade. Nem de uma ferramenta para barrar fake news. A nova incumbência do Facebook tem a ver com a necessidade de aplacar a dor dos que perdem seus entes queridos e não podem fazer um velório, uma missa ou um encontro presencial. 

Passear pela rede social nas últimas semanas tem sido como passear por um obituário informal. Entre as fotos de famílias felizes e links para reportagens sobre os diversos problemas que vivemos hoje, há sempre um texto de homenagem a alguém que se foi vítima do coronavírus.

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São palavras invariavelmente saudosas de quem viu a estatística bater na porta de casa. 

Depoimentos doloridos, que celebram a vida que se foi. É o choro entalado e o abraço que não pode ser dado. É um pouco do choque e da necessidade de materializar uma dor. 

E assim, a rede que já foi dos gatinhos, das brigas políticas e dos pedidos de recomendação vai se tornando agora a rede dos velórios engasgados.

Passam os dias e com eles vamos nos aproximando da ocupação máxima de UTIs. Passam os dias e com eles vão aumentando os números de mortos. E na rede social de Mark Zuckerberg vão pipocando as homenagens cheias de dor e lembrança. 

Poderia ser bonito e o simbolismo de uma utilidade real para essa rede tão cansada e marcada pelas desavenças, mas, no fundo, cada texto dolorido é o contar de mortes que, quem sabe, poderíamos ter evitado.

A dor rasgada da filha que perdeu o pai e observa o chocolate que não deu tempo de ele comer.

A homenagem dos amigos ao enfermeiro que agonizou sozinho.

O adeus das colegas que não puderam se abraçar e chorar juntas sobre o caixão da comparsa.

Está tudo lá, no Facebook, pra mostrar que a morte por coronavírus não é uma coisa que "faz parte, taokey?". Ela é fruto da imensa dificuldade de liderar a sociedade pelo caminho mais seguro. Ela é o atestado de ignorância e desorganização. Ela é a consequência escarnada de políticas que não privilegiam a vida e turvam a visão da população. 

Isolados, confusos e mal orientados, seguimos assim, lendo os obituários de Facebook e rezando para não sermos os próximos a acender essa vela virtual. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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