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Quando sair dos grupos do zap, a rede mundial da ansiedade

Lia Bock

31/03/2020 04h00

(iStock)

A internet tem sido uma dádiva de forma geral. As redes sociais têm funcionando como o cafezinho no trabalho, a cerveja do happy hour e o almoço na casa da sogra, dentre outros encontros. 

Mas o WhatsApp tem sido bem mais que isso. É por ali que entram loucamente fatos e fakes, é por ali que somos interrompidos a qualquer hora pelo número de mortos, pela falta de testes, pelas falas irresponsáveis do presidente e pela réplica dos outros políticos. É por ali que chegam os vídeos tocantes e os desesperadores, os falsos decretos e as notícias de que fulano está internado em estado grave.

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E, claro, a maioria desse conteúdo chega pelos grupos, porque ninguém avisa sobre o Apocalipse de um em um, manda logo pra geral que é pra causar mais efeito. E, assim, viramos todos para-raios de notícias em tempo real. Grupo dos pais da escola, grupo das amigas festeiras, grupo da família, grupo da vizinhança e dos colegas surfistas: em todos eles só se fala de covid-19, suas causas, suas agruras, seu impacto na economia e no futuro da humanidade.

E é claro que isso ia "dar ruim". Com tanta notícia (falsa e verdadeira) invadindo a nossa vida a cada cinco minutos, a ansiedade vai lá em cima. Até que chega o dia em que não dá nem pra trabalhar, nem pra fazer o jantar das crianças, nem pra dormir ou relaxar. 

Nessa hora, meus amores, a única coisa a fazer é bater em retirada e fechar aquele canal específico de informação pra dar uma equilibrada geral. 

Em casos extremos de breakdown, até acho que vale a alienação voluntária total – aquela em que a gente se fecha para as notícias do mundo lá fora e curte não saber, não ver e não ouvir nada. Mas, no geral, não acho essa saída uma boa opção. Não neste momento. É preciso saber do que está acontecendo e entender a dimensão do problema, e acompanhar a evolução do coronavírus no nosso país é importante para que saibamos como agir, a quem ajudar e o que pensar. Mas isso pode muito bem ser feito com o zap desligado – ou com alguns grupos, ao menos com aqueles em que a troca de informação está mais hard, bloqueados.

Dá muito bem pra se informar pela televisão e pelos sites de notícia. A cobertura jornalística está muito honesta no Brasil e no mundo. Dessa maneira, a gente entra na notícia na hora que quer, quando nos sentimos preparados para ler, ver ou ouvir sobre o assunto, e não quando o celular treme no bolso no meio da lição da escola, da preparação do jantar ou de um momento de descontração em família.

Isso muda tudo.

Tem gente que consegue manter o celular a uma distância segura durante o dia todo a ponto de não olhar pra ele cada vez que bipa. A estes chamo de gênios! Se deparam com a enxurrada de mensagens só quando estão a fim. Mas, falemos a verdade, a maioria de nós bisbilhota o aparelho assim que ele toca. Pois é esse grupo que precisa criar recursos para não ser dragado pela ansiedade que essas mensagens trazem.

É fato que uma notícia triste ou uma previsão catastrófica pode derrubar a vibe positiva que estamos a duras penas tentando conquistar, por isso o manejo do celular é tão importante. 

Se você está num (raro) momento de descontração e alegria, deixe o zap e tudo que chega por ele bem longe. Pra quem trabalha no computador o dia todo e usa a (maravilhosa) versão web do app também vale o alerta. Durante essa pandemia, se a gente não cuidar, vai perder muito tempo interrompendo atividades, pensatas, textos, tabelas e  raciocínios pra "dar uma lidinha" nas três, quatro ou 17 mensagens que acabaram de chegar. 

Não são poucas as pessoas que estão relatando uma falta de ar que (aparentemente) não tem nada a ver com o coronavírus. Falta o ar porque está difícil lidar com a realidade mesmo. Falta o ar porque estamos com medo e apreensivos com o que está por vir. Falta o ar quando pensamos nos mortos, nos desassistidos e na possibilidade de uma forte recessão. Falta o ar quando amigo diz que está com tosse e quando chega o vídeo da enfermeira italiana. 

E falta mesmo. Falta pra todos nós. Mas pra esse aperto no peito não há respirador ou cloroquina. O que resolve é conseguir uma certa positividade, se agarrar no amor e nos momentos de tranquilidade. E, claro, silenciar o zap sempre pode ajudar.

Sobre a autora

Hoje comentarista na CNN Brasil e editora da plataforma Hysteria, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e também colunista da revista "Crescer".

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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