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Bial, Zé de Abreu, a vagina e o pé com bunda do machismo “celebrizado”

Universa

05/02/2020 04h00

O que o ator José de Abreu e o jornalista Pedro Bial têm em comum? Tirando o fato de os dois terem ficado conhecidos por entrarem em nossas casas pela televisão, pode parecer que mais nada. Ledo engano. O ativista intelectual e o conservador intelectual mostraram essa semana que se unem pelo machismo. Que tristeza.

Bial desatou a criticar Democracia em Vertigem, filme da diretora Petra Costa que concorre ao Oscar de melhor documentário no próximo domingo. Estaria tudo bem se tivesse usado argumentos históricos e feito uma crítica consistente, mas caiu no argumento fácil – e machista – que desmerece a moça e seu feito de ter levado o Brasil ao Oscar. Entre outras coisas, disse que Petra "é uma menina querendo dizer para a mamãe dela que ela fez tudo direitinho" e que seu filme conta a história "num pé com bunda danado".

Alguém aí já viu chamarem Walter Salles de filhinho de papai? Mesmo seus maiores críticos se atêm às suas obras na hora de descer a lenha. E era isso que Pedro Bial deveria ter feito. O filme, como qualquer outro, é passível de crítica, contanto que seja feita de uma forma embasada e respeitosa. 

O mesmo vale para Zé de Abreu, que se pôs a "desmascarar", como ele mesmo disse, nossa nova secretária de cultura, Regina Duarte. Ora, não há problema nenhum em discordar politicamente dela e muito menos de usar argumentos plausíveis para afirmar que a atriz não está preparada para o cargo. Também não há problema em, estando na oposição, se declarar decepcionado com o aceite do cargo. Mas, na hora em que os argumentos entram na seara de gênero, que desmerecem Regina por ser mulher e fala de suas "rugas" e "banhas", a coisa sai do território político e entra no mais deslavado machismo. Em sua defesa, o ator disse à "Folha de S.Paulo" que "fascista não tem sexo" e que "vagina não transforma uma mulher em um ser humano".

Algumas pessoas podem argumentar que o ator, de 74 anos e o apresentador, de 62, são de outro tempo e ainda estão se familiarizando com "a novidade" do respeito às mulheres. Outros podem dizer que ainda não se habituaram com a velocidade com que "escorregões machistas" são julgados na internet. Mas não deixa de ser triste que, pra onde olhamos, à direita ou à esquerda, ainda precisamos lidar com esse tipo de crítica.

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E não venham  dizer que um "só deu sua opinião sobre o filme" ou que o outro "só falou o que a turma estava dizendo à boca pequena sobre a secretária de Cultura". Quando se dá uma entrevista, não estamos numa mesa de bar, não estamos entre amigos. Precisamos de responsabilidade e cuidado. Já vi gente, tão ou mais importante do que os dois, desfiando críticas pra lá de questionáveis. Nenhum deles em público, nenhum deles influenciando (ou tomando bronca) de mais do que dois ou três amigos numa roda de conversa. 

Para aquelas pessoas públicas que, como Pedro Bial e José de Abreu, dizem serem simpáticas à igualdade de direitos, é preciso atenção aos argumentos e cuidado para não cair na vala fácil de desmerecer apelando para o gênero. Na casa deles, podem xingar a vontade, se nenhuma mulher em volta se sentir incomodada. Mas publicamente é outra coisa. E não pensem que é bobagem, porque não é.

A entrevista de Pedro Bial está circulando por aí com xingamentos ainda mais agudos à diretora. Claro, a turma se sentiu autorizada. Quando um líder, uma personalidade confiável, baixa o nível dos argumentos, puxa com ela a turba radical barulhenta e absolutamente inescrupulosa. E duvido muito que Bial tenha dito tais palavras pensando em criar uma onda machista contra mulheres da indústria do cinema. Mas, quando se é uma pessoa pública, não precisa querer para as coisas acontecerem. 

Com Zé de Abreu foi um pouco diferente. Pois ele queria era justamente criar um movimento opositor ao governo e à gestão de Regina, mas o que conseguiu foi a ira das feministas e o título de esquerdomacho misógino. 

Em ambos os casos, é uma pena. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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