PUBLICIDADE

Topo

Faltam 36 dias para o Carnaval: é hora de falar sobre corpos nus e assédio

Lia Bock

16/01/2020 04h00

(iStock)

Oficialmente, faltam 36 dias para o Carnaval. Mas a verdade é que o famoso pré-Carnaval tem se estendido tanto que já adentramos a época da folia. Os blocos estão promovendo festas de aquecimento, e quem gosta de marchinha e batucada já está com a agenda cheia. Por isso, me adianto no texto sobre bons modos carnavalescos. Melhor prevenir do que remediar.

Neste ano, o Carnaval trará uma vibe curiosa, já que significativas conquistas femininas e LGBTQs convivem com um acirramento do conservadorismo institucional do país. E, goste a ministra Damares ou não, precisamos lidar com o fato de que mulheres estarão ostentando seus seios ao ar livre. Caso você partilhe do horror ao corpo feminino nu em público, não se desespere, não agrida e nem fotografe, apenas ignore. Desvie o olhar, a rota e, se necessário, faça um post denúncia (sem imagem, claro) sobre o despudor do tal bloco ou baile. 

Mas, se conseguir, respire fundo e pense como os mamilos femininos foram confinados às camadas de roupa por séculos e, só agora, estão saindo para dar uma voltinha. No Brasil, claro. Porque, em muitos países do mundo, peitinho anda livre na praia há tempos.

Se você é mulher e está na dúvida sobre botar o peito de fora, recomendo fortemente os pasties. Neste ano, eles vêm temáticos, com penduricalhos e força total. Tapam, mas nem tanto. Sucesso garantido.

Veja também

Outro tópico importantíssimo é o "não". Sei que tem gente que acha que a gente deve deixá-lo em casa no Carnaval, mas a verdade é que ele segue significando "não" mesmo nos dias mais loucos. E vale lembrar o ensinamento de anos passados: tudo que vem depois do "não" é assédio.

Aliás, essa é uma ótima aula para o deputado desavisado que tem bradado pelo direito das mulheres de serem assediadas. Meu amor, de paquera a gente gosta, e muito, de elogio também. Assédio é outra coisa e, se isso não está claro, precisaremos retomar essa questão. 

Mas como saber diferenciar? Não é difícil, gente! O assédio é feito de abordagens grosseiras, ofensivas e propostas inadequadas que constrangem, humilham ou amedrontam. A paquera é sutil, quase que uma pergunta se o outro topa aquele diálogo. E, se a pessoa disser que não está interessada, pronto: acabou o conversê, parte pra outra. Certeza que vai ter uma tampa pra sua pipoqueira carnavalesca. Pegar no braço, no cabelo ou lascar um beijo sem avisar, jamais! E também não vale xingar se a pessoa dá a negativa, tá? É Carnaval e não festinha da terceira série. 

Pra mulherada, vale a dica da clareza. Botar a tatuagem temporaria do "não é não" ajuda os mais confusinhos a identificar quem está protegida pela gangue local (no caso, todas as outras mulheres). Sim, a tatuagem virou marca de feminista consciente e tem o incrível poder de afastar babacas. 

"Ah, mas eu sou mulher e não gosto do que dizem as feministas." Não tem problema, elas não ligam que você não goste, pode usar a tatuagem pra se blindar e ser feliz mesmo assim. Porque numa coisa a gente concorda, né, amores: homem bêbado forçando a barra é chato demais. 

Outro ponto importante bate forte na heterossexualidade: se um rapaz vier te paquerar, lembre que orientação sexual não está escrita na testa. Então é preciso dizer, sem alarde e muito menos porrada, que "bicho, eu não curto caras". Pronto. Mas, claro, se ele insistir, pegar no seu braço ou no seu cabelo, não se acanhe e fale grosso (com as mãos pra trás, sem violência): "Não é não, rapá". 

Fora isso, já vale reforçar o estoque de camisinha e arrumar uma pochete onde caiba o celular, o dinheiro e o bilhete único. Esquece que você acha isso feio e lembre que, no Carnaval, vale tudo, se respeitarmos o corpo, o espaço e as escolhas dos outros, claro! 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Hoje comentarista na CNN Brasil e editora da plataforma Hysteria, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e também colunista da revista "Crescer".

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

Blog da Lia Bock