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Mulher agredida em bar em BH: não basta não bater, é preciso intervir

Lia Bock

28/11/2019 04h00

(iStock)

Num país machista, não basta não ser machista, é preciso ser antimachista: a frase, geralmente aplicada para falar de racismo, hoje vem a calhar para falar de violência contra a mulher. Pois foi isso que faltou na lamentável agressão a uma mulher num bar em Belo Horizonte, no domingo (24). 

É muito chocante ver um homem agredindo uma mulher por um motivo banal, o local da mesa no bar. Mas também chama a atenção no vídeo das câmeras de segurança a passividade das pessoas em volta e o apoio infantil do amigo do agressor, que também empurra a vítima. 

Ou seja, falando friamente, o que vemos nas imagens que estão rodando a web, são dois homens agredindo uma mulher e pelo menos dez pessoas assistindo de forma passiva às três agressões –um empurrão violento que joga a mulher contra o chão, outro empurrão que a mantém no chão e um soco na cara. 

Mulher é agredida por dois homens em bar de Belo Horizonte

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É verdade que o agressor é grande e forte, mas nada justifica a não intervenção. Tem pelo menos dez pessoas em volta.

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Um dia depois dessa agressão em Belo Horizonte, 25 de novembro, foi o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A proximidade das duas coisas deve servir de alerta e evocar a frase citada acima. 

Porque não basta não bater em mulher, é preciso intervir e denunciar quando vemos acontecer. E, mais, é preciso se indignar! 

Este caso me lembrou o que ocorreu em 2014, em São Roque (SP), e foi notícia no Jornal Nacional. Ali, numa discussão na rua, um homem dá uma violenta cotovelada em uma moça. Ela bate a cabeça no chão, tem uma convulsão e não levanta mais –teve traumatismo craniano. Enquanto a vítima está estatelada no chão, imóvel, o agressor e seus amigos seguem bebendo suas cervejas em volta. 

Onde está a indignação? Indignação com o ato e com a grave consequência dele. O desprezo pela vida alheia que vemos nas imagens de câmeras de segurança que registraram a cena é chocante.  

Outro caso recente de falta de indignação também ganhou repercussão e merece entrar neste caldo. Agredida por um lutador de boxe em um restaurante, uma moça viu seus amigos e quem estava em volta pedirem calma a ela quando resolveu denunciar. O dono do estabelecimento ainda se negou a dar a gravação para "não criar mais problema". Não, querido: o problema já foi criado pelo agressor. As opções que você tem agora são ser negligente e idiota ou colaborar com a Justiça e resgatar sua dignidade de volta. 

Sim, porque quem assiste a uma violência dessas e se nega a ajudar, como foi o caso do dono do restaurante, pra mim, se iguala ao agressor.

Esses três casos são bem emblemáticos do que quero dizer aqui. Não podemos nos esquivar da indignação, não podemos fingir que não vimos ou que não é conosco. Se acontece do nosso lado, passa a ser problema nosso. Não é difícil entender. É um crime. Gostemos ou não, somos testemunhas e já estamos implicados de alguma maneira. Precisamos é trazer essa implicação para dentro dos nossos valores éticos (e não apenas jurídicos) e escolher o lado certo onde queremos estar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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