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As pessoas postam no Instagram porque viajam? Ou viajam só pra postar?

Lia Bock

21/11/2019 04h00

(iStock)

Quando o Instagram era uma rede social usada com moderação, as postagens de viagens tinham um ar lúdico. Era gostoso ver ali, no meio do nosso dia, uma ou outra foto de um mar translúcido, um parque coberto de neve, a vista do alto de uma montanha ou um prato típico de um país distante. 

Acontece que o tempo passou e, com as rugas, ganhamos a ânsia por postar tudo que nos acontece. Os filhos de pijama, o céu de uma segunda qualquer, o almoço do trabalho, os filhos indo pra escola, a chuva que se aproxima, o trânsito que nos impede de chegar em casa, o vinho porque ninguém é de ferro, os filhos escovando os dentes, o livro que vamos começar a ler… Postar é viver e viver é postar. E há quem diga que se não postou não aconteceu (pobres almas!). 

Neste contexto, tirar férias poderia ser um ótimo momento de detox digital. Tão necessário ultimamente. Mas não. Em vez disso, as pessoas duplicam suas postagens num surto ególatra como se todo mundo precisasse ver o que estamos vendo, ou melhor, como se todo mundo precisasse ver que nós estamos ali, numa relax, numa tranquila, numa boa.

As postagens de férias são tão exageradas que chego a pensar que as pessoas querem mesmo é que os outros vejam que elas estão ali. "Olha, olha, tô em Tóquio!", em Berlim, num safári, numa praia sem viva alma. 

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Vocês podem dizer que eu sou chata e que estou encrencando com as viagens alheias. Mas reparem no exagero de posts que algumas pessoas fazem nas férias. Não é que a galera fotografa um monte, chega de noite e, exaurida da caminhada num lugar diferente, olha as fotos, seleciona e resolve postar alguma coisa para dividir com seus comparsas. Não! Elas entram no primeiro café que encontram, ligam o wifi e postam dali mesmo o que acabaram de fotografar e essa atitude se repete várias vezes ao dia! Isso sem falar na turma que paga o pacote internacional para continuar com acesso 'full' às redes!

Gente, não há nada de saudável ou bonitinho nisso e ter essa consciência é fundamental. 

Precisamos resgatar o prazer pelo mistério, o sabor de fazer escondido e de viver algo. Precisamos ficar satisfeitos em estar vivendo aquilo e ponto. Precisamos resgatar nossa vida unitária e lembrar que existe felicidade sem postagem, existe satisfação e alegria sem que seja necessário anunciar pra todo mundo.

Isso vale, claro, para as férias ou para o dia a dia em família, mas, se a gente começar pelas viagens (onde o surto ególatra é generalizado e agudo), vamos perceber que a vista não muda se a gente não posta. E, ao contrário, não ficar imerso no celular em dólares ou enquanto a Bahia acontece lá fora nos devolve minutos maravilhosos e uma paz que não estamos mais acostumados a ter. 

Sim, porque não existe postar sem ler e responder aos comentários e não existe postar sem dar uma passeada pelo feed. E, daí, quando vemos, estamos de férias num lugar maravilhoso vendo nosso chefe postar a foto do almoço e nosso vizinho postar as crianças indo pra escola. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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