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Fantasias canceladas: a polêmica do que não pode no Carnaval segue quente

Universa

18/02/2020 04h00

(iStock)

Quando chega o Carnaval sempre aparece a discussão sobre o que é e o que não é fantasia. Este ano não foi diferente, e para colocar pimenta na conversa a atriz Alessandra Negrini, madrinha do Baixo Augusta, em São Paulo, puxou o gigantesco bloco vestida de indígena. A internet veio abaixo.

De um lado estavam seus apoiadores, alegando que a fantasia tinha uma pegada política e lembrando que a moça entrou de mãos dadas com algumas das principais lideranças indígenas do país. Faz sentido. Do outro lado está a turma do "não precisa se vestir de indígena para apoiar a causa", o que faz todo sentido também.

Uns acham que a patrulha se perdeu em seus argumentos; outros afirmam, com contundência, que não pode haver exceção. E, no meio, há um monte de gente sem saber direito o que pensar. 

O assunto esquentou quando uma campanha da Defensoria Pública do Ceará do ano passado voltou a circular nas redes. Nos quatro quadrinhos, o órgão diz que crença, raça, identidade e religião não são fantasias e explica o porquê. Escrito ali faz todo sentido: "Divindades do candomblé, da umbanda, padres, pastores, judeus e muçulmanos representam costumes, tradições e crenças. Todas as religiões pregam o respeito ao outro. Somos diferentes até na hora de crer e isso não é brincadeira", diz o cartaz que trata de religião.

Mas, ao mesmo tempo, parece meio descabido cancelar tradicionais blocos que estimulam a inversão de papéis entre homens e mulheres ou apontar o dedo para a atriz que se veste de indígena fazendo declarações pertinentes a favor dos povos nativos brasileiros.

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E o que me vem em mente quando quero chegar numa conclusão é que a motivação importa. A mensagem que está sendo passada e o porquê da escolha da fantasia fazem diferença para o que eu vou achar dela. Mas, como a explicação ou o texto nem sempre vem junto, de fato temos um impasse aí. 

Pra não dar margem à dúvida, algumas pessoas levam a plaquinha a tiracolo deixando claro a que vieram. Como é o caso da Cinderela. Fantasia que, no geral, acho bem boba porque reforça o estereótipo da mulher que precisa do príncipe para viver. Mas, quando essa mesma Cinderela segura uma plaquinha onde se lê: "Única empregada na Disney", a coisa muda de figura. Muda a motivação, muda tudo. E, no caso, passo a achar a fantasia superbacana.

E não que eu esteja querendo comparar meu bode pessoal da Cinderela com fantasias que agridem as pessoas, gêneros e religiões. Eu, pessoalmente, jamais me vestiria de indígena depois de ouvir os argumentos pró-respeito e ler o cartazinho cearense. Mas me pergunto o quanto essa tentativa de conscientização não acaba por afastar mais as pessoas do que conscientizar de fato. 

Vamos a outro exemplo para deixa claro como a coisa é confusa. Uma das fantasias mais legais que vi nas redes neste pré-Carnaval foi da dupla composta por Damares Alves e Greta Thunberg. A mulher estava de Greta, com trancinhas e uma placa em sueco, e o marido estava de Damares. Perfeitos. Fiquei fã e não achei nada ofensivo o rapaz estar vestido de mulher. Me pergunto se, nesse caso, sendo uma mulher específica, tudo bem. 

Novamente me convenci que a motivação importa e achei bacana. Então me peguei pensando em sugerir para um amigo que gosta de sair de vestido justo e peruca longa de ir de Bruna Surfistinha. Sendo uma pessoa específica, e não uma mulher aleatória estereotipada, talvez não tenha problema. Mas não tenho muita certeza disso.

É pela falta de certezas que vale a pena gastar um tempo com essa polêmica, escutar os argumentos de um lado e de outro e avaliar o que nos parece mais adequado. Mas o mais importante é ter em mente que essa discussão é só a ponta do iceberg. Porque não adianta vestir a fantasia certa e colocar fogo em mendigo. Não adianta abandonar a peruca e pegar mulher a força. Não adianta cancelar a Alessandra Negrini e cuspir fake news sobre a jornalista Patrícia Campos Mello. 

Escutemos, sim, quem tem críticas pertinentes a dizer, mas tomemos muito cuidado com os incendiários de internet, que estão a fim mesmo é de ver o mundo pegar fogo na mais deslavada onda de que "quanto pior, melhor". 

 

 

Sobre a autora

Hoje comentarista na CNN Brasil e editora da plataforma Hysteria, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e também colunista da revista "Crescer".

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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