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Ministra Damares, por favor, defina "solteirona"

Lia Bock

02/07/2019 11h15

(iStock)

Me deparei aqui com um animado vídeo da ministra Damares Alves convidando os funcionários de seu ministério para um arraiá. Não me incomodou o fato de ela tentar formar casais no serviço. Acho que o trabalho pode ser um bom lugar pra gente dar match no amor. Mas um detalhe semântico me chamou a atenção.

Quando fala dos homens, Damares diz "solteiros" e quando fala das mulheres, ela diz "solteironas". Parece bobagem, mas não é. Está embutida nesta pequena diferença uma carga forte. Analisemos.

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Solteiro é o cara que não tem um par e ponto. A versão feminina disso seria solteira. Mas ela diz "solteirona", que claramente traz um peso negativo para a história. É neste detalhe que a ilustre ministra empurra para as mulheres aquele antiquado peso social de que mulher foi feita mesmo é pra casar e que as que não casaram ainda não são apenas solteiras, são solteironas — inadequadas, encalhadas. 

Esta diferenciação não cabe muito bem em mundo onde as mulheres "já" são livres para decidir se querem casar; um mundo onde as mulheres são ministras, presidentas, funkeiras. Livres.

Segundo um levantamento do IBGE, cada vez mais mulheres estão optando por ficar solteiras e, mesmo quando consideradas as que se casam, percebemos que elas estão firmando compromisso mais velhas. Por isso o termo solteirona está meio démodé. 

Não se casar hoje é uma opção e não a falta dela.

E é importante que enquanto cidadãos deste milênio acompanhemos nossos tempos e respeitemos as mudanças positivas que se impõem. Quando uma ministra solta quase sem querer que homens são solteiros e mulheres são solteironas, está puxando a população feminina de volta para aquele lugar desatualizado em que as que não se casavam eram as perdedoras, eram as descartadas. Umas coitadas. 

E já que estamos aqui, acho que vale falarmos um pouco de outros termos. Qual seria o equivalente a solteirona? A semântica diz que solteirão, certo? Mas curiosamente este palavra não traz a mesma carga que a feminina — sim, porque palavras são também a carga que a história jogou nelas. E solteirão é algo que joga os caras para cima, traz um ar de boa pinta, de cobiçado, de bom partido. É a cultura machista dando lastro para os termos. 

Nem preciso lembrar dos animais que definem os homens rueiros e suas equivalentes femininas, né? O garanhão é viril, é interessante, é comedor, é celebrado. Já a galinha é rodada, depreciada, a que dá pra qualquer um e não merece respeito. Foi a nossa cultura que criou essas definições opostas para a mesma coisa. Tão anos 1990, não é mesmo?

Então, excelentíssima ministra, da próxima vez que quiser dar uma de Tinder ou de santa casamenteira, lembre-se de que se casa quem quer e quando quer e que solteirona era a senhora sua avó. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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