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Lia Bock

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Fé em que, se tesoureiro do Vaticano é condenado por abuso de menores?

Lia Bock

02/03/2019 11h56

iStock

Na mesma semana duas notícias envolvendo escândalos da igreja católica passaram nosso feed. Uma é aqui mesmo no Brasil: na metralhadora giratória de Sérgio Cabral vieram à tona "falcatruas" que envolvem hábitos luxuosos e euros escondidos na Arquidiocese carioca. A outra notícia vem da Austrália; em que o tesoureiro do vaticano, George Pell, foi condenado por abuso sexual de meninos de 13 anos.

Eu sei que o Papa Francisco tem se esforçado para trazer a igreja para o século XXI, mas falatório nenhum será suficiente se a igreja não rever seus podres desde as raízes. O caminho parece ser vertiginoso ladeira abaixo.

Porque não é só a cabeça desse ou daquele padre, bispo ou cardeal que estão em jogo, estamos falando da fé das pessoas. Da confiança cega que por séculos foi depositada nos que se denominaram a ponte entre nós e Deus. A igreja se colocou neste lugar e ano após ano vemos tombar os itens mais básicos da ética cristã.

Quando um cardeal dogmático que pregava a moral e condenava duramente a homessexualidade é condenado por abuso de crianças é sinal de que está tudo muito errado. A cada escândalo um pouco da confiança é abalada e some com ela um naco da nossa fé.

E não adianta dizer que 'ele é um criminoso e que deve ser punido' ou que 'não podemos pegar um caso isolado e julgar toda a Igreja'. Não é de hoje que casos de corrupção, pedofilia e abuso aparecem.

Pra quem tiver interesse indico a série "The Keppers", da Netflix, que mergulha no assassinato da freira e professora Cathy Cesnik, em novembro de 1969, e vai mostrando que o crime, nunca desvendado, foi abafado com vigor pela igreja ao mesmo tempo que denúncias de abusos sexuais contra o padre Joseph Maskell, chefe de Cathy, vieram à tona. O que chama mais atenção na perturbadora série é como o poder da igreja é fundamental para acobertar denúncias de crimes que vão de assassinato a estupro.

Pra ficar apenas no que nos mostra a Netflix podemos citar também o longa "El Bosque de Karadima", que conta a história de um dos maiores escândalos envolvendo sacerdotes na América Latina, a de Fernando Karadima, famoso pároco chileno que abusou psicológica e sexualmente durante décadas de seminaristas, além de fazer fortuna com sua igreja. Ali fica claro como a autoridade e o prestígio de que desfruta um padre faz com que ele consiga abusar não só de jovens inocentes, mas também de adultos. Porque o padre é a porta da nossa fé para o reino de Deus. É a pessoa em quem a maioria confia, a priori. Ou pelo menos era.

Se a igreja não se esforçar um pouco mais em perseguir e punir esses padres, se mantiver a mesma postura que por décadas acobertou e minimizou os crimes de seus vigários, muito em breve pensaremos duas vezes antes de deixar nossos filhos adentrarem a missa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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