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Lia Bock

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Homem agride mulher e alega que ela feriu seu "ego masculino". Sério?

Lia Bock

2013-02-20T19:05:00

13/02/2019 05h00

(iStock)

Esta semana os portais de notícias foram invadidos por várias desgraças. Uma delas tem pinta de corriqueira: mais uma mulher foi violentamente agredida pelo marido. Mas dessa vez o rapaz usou uma justificativa curiosa; disse que a espancou e ameaçou de morte por ela ter "ferido seu ego masculino".

A moça, mãe de seu filho recém-nascido, havia recusado o pedido do marido de dançar com um parente numa festa de família.

Onde isso fere o ego de alguém? A única coisa que essa recusa fere são séculos de patriarcado, tempos em que não cabia à mulher decidir sobre si mesma. Tempos que incluem submissão, obediência e porrada. Vem daí o regime de leis que tirava da mulher qualquer direito a posse, voto e que não punia maridos que "aplicassem castigos corporais às esposas".

Toda nossa cultura é enraizada nestes pilares e por mais que tomemos cada dia mais distância de tudo isso, ainda sentimos na pele os efeitos da história. Somos agredidas como se estivéssemos no século XIX e ainda temos que escutar esse tipo de "justificativa". Pra mim, são duas agressões, uma ao corpo e outra às nossas conquistas.

Sei que muitos vão dizer que o cara é maluco e que tem que ser punido. Ponto. Mas o melhor a fazer, meus amigos, é refletir sobre tudo isso. Pois é este mesmo "ego masculino" que joga na roupa curta a culpa por assédio e estupro. É esse mesmo "ego masculino" que faz com que aceitemos a traição dos homens e condenemos a das mulheres. É este mesmo "ego masculino" que joga sobre nós as responsabilidades pelo lar mesmo quando o trabalho fora e a renda são divididos igualmente.

Nossa história nos condena (ainda) a uma forte luta por direitos, porque os ensinamentos do patriarcado estão em cada um de nós e, infelizmente, nessa história não somos princesas e vestimos rosa, somos propriedade e temos a roupa  manchada com nosso próprio sangue.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.