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Lia Bock

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Será que vamos sobreviver ao Whatsapp?

Lia Bock

2004-02-20T19:04:00

04/02/2019 04h00

(iStock)

Os grupos se multiplicam. Tem o da família inteira, o do núcleo mais fechado e o dos irmãos. Tem os grupos da escola das crianças, o dos amigos da faculdade, tem o dos amigos lato sensu e o do núcleo duro das 'migas' de infância. E claro, tem o da rua, o do trabalho e o das politicagens. Fora isso tem a Congás, os mais variados médicos e toda a vasta lista de contatos com mais de 20 anos de agenda, todos mandando mensagem sobre temas diversos. Ah e as Fake news, como esquecer.

Já não dá pra dormir com o celular ligado há tempos. Pois os amigos que moram fora mandam mensagens de madrugada, a vida de alguns parentes começa às 6h da matina e a dos amigos millennials termina às 5h. Na verdade não dá pra viver com o celular ligado porque o Whats toca sem parar trazendo piadas idiotas, reportagens relevantes, notícias boas e tristes, reuniões, ofertas de emprego e fotos, muitas fotos! Não há reunião que sobreviva a dois celulares ligados.

A pergunta é: será que nós, humanos, vamos sobreviver?

Tirando o fato que muita gente não tem maturidade para usar a ferramenta, pra que mesmo que a gente precisa estar tão acessível, meu deus? Não há criatividade que se mantenha sendo interrompida pelo tilintar com memes emburrecedores.

E agora a própria ferramenta traz a (péssima) notícia semanalmente: "você aumentou seu tempo de uso em 30%". Que seja 15% ou 10% não conheço ninguém que veja o tempo de uso cair nesta proporção. Estamos sendo dragados para dentro do Whats e (parece) que não há muito o que fazer. Tem os apps reguladores de tempo, mas quem consegue cortar o uso depois que ele avisa que você passou do limite estabelecido por si mesmo? E se os filhos mandarem mensagem? E se o chefe procurar?

Ao meu ver, não é exatamente um caso de vício, como o que temos por Instagram e Facebook, por exemplo. Nestes, ficamos rodando o feed feito zumbies. Com o 'zap' é muito pior. A dependência é enraizada numa necessidade (real) criada com o tempo. Precisamos dele. E precisamos cada vez mais. Só que junto com a necessidade vem um monte de bobagem que, às vezes, até parecem muito importantes para nossa vida.

Pobres daqueles que não conseguem viver sem zerar as mensagens não lidas.

Já substituímos as revistas das salas de espera pelos Whats. O livro antes de ir dormir também. O colega do almoço também é frequentemente trocado pelos amigos distantes e áudios intermináveis. E zerar a lista na privada é um clássico. Haja cocô!

É tanta coisa que não dá nem pra dirigir sem acessar o app. O que tem de motorista mais preocupado com as mensagens do que com o transito não está escrito! É impressionante nossa dificuldade de dirigir sem olhar as mensagens. Isso põe em risco não apenas a nossa vida como também a dos pedestres que cruzam nosso caminho. Mesmo os profissionais do trânsito como motoristas de taxi, Uber e afins não tem o menor pudor em receber e responder mensagens enquanto nos levam em seus carros. Porque, claro, o zap não pode esperar.

O mundo parece chegar todo pelo Whatsapp e, assim, vamos usando cada vez mais, parecendo não haver teto ou limite. Um indício disso está na política das empresas de celular. Muitas já tiraram o zap do pacote de dados. Pois ele é um caso a parte. Um uso a parte. Um mega-master-blaster uso ao qual pacote nenhum daria conta.

Sim, minhas senhoras e meus senhores: estamos sendo engolidos por esta ferramenta aparentemente inofensiva que surgiu para facilitar a nossa vida. Estamos a um clique de qualquer pessoa nos fazendo um tipo de Pay-per-view 24h de nós mesmos.

E ai de você se visualizar mas não responder uma mensagem. Entra para a escória da humanidade. Ui. Pois é…

– morreu de que?

– morreu de zap!

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.