Topo
Lia Bock

Lia Bock

O vibrador da discórdia. E da vergonha moralista até da tecnologia

Lia Bock

15/01/2019 05h00

Foto: Reprodução. Este é Osé, o vibrador acusado de ser "imoral"

A pergunta parece simples: um vibrador inteligente que imita com perfeição os movimentos dos dedos, da boca e da língua pode ser considerado um robô?

Claro que cada um tem sua própria resposta e essa discussão merece algumas horas e cervejas, mas para os jurados da CES (Consumer Electronics Show) – maior feira de tecnologia do mundo, que aconteceu de 8 a 11 de janeiro em Las Vegas – não só a resposta foi sim, como o dildo hightech Osé ganhou o Prêmio Honorário para produtos de robótica ou drones.

Só que um mês depois de ser agraciada com o prêmio, a marca Lora Dicarlo recebeu uma notificação confiscando o produto. Parece que não houve consenso na cervejinha dos organizadores e jurados da feira.

Não só o vibrador viu seu Oscar tecnológico escorregar pelos dedos, como foi totalmente banido do tapete vermelho dos gadgets: ele não poderia nem ser exibido na feira. Foi de premiado a produto non grato. Uma carta avisou que o produto se enquadrava na categoria "imoral, obscena, indecente e profana" e que estava sendo banido. E aqui está o choque.

Pessoal, desde quando um vibrador é um produto imoral? Se estivéssemos falando de uma exposição na igreja, vá lá ter essa discussão. Mas numa feira de tecnologia? Pelo amor de Deus, pelo amor de Marie Curie! Onde está a máquina do tempo que nos enviou diretamente para o século 19?

O prazer feminino já saiu do armário faz tempo e os cientistas estão de olho neste mercado. De alguns anos pra cá, diversas marcas investiram em modelos low ou hight tech para estimular o prazer feminino. E não porque elas são legais (apenas), mas porque dá dinheiro. Porque o mercado existe e há demanda.

Fico aqui num exercício de ficção tentando imaginar as conversas por trás das coxias da feira. Uma turma defendendo o prêmio que concedeu, reconhecendo uma tecnologia robótica de ponta e outra turma se apegando a argumentos pouco científicos e de cunho altamente duvidoso para cortar as asinhas do pobre Osé.

Mas é importante lembrar que não estamos falando só de puritanismo aqui. Já que no ano passado a feira já foi palco para uma boneca sexual destinada a homens. Ou seja, o problema não está em ser um brinquedinho que visa o prazer, mas em ser um brinquedinho que visa o prazer feminino.

Este é um exemplo translúcido e bem didático do que chamamos sexismo e discriminação de gênero; e a pergunta passa a ser: por que prazer masculino pode e prazer feminino não pode? Me lembra aquelas famílias em que o filho pode dormir com a namorada em casa, mas a filha, não. Em se tratando de uma feira de tecnologia é algo absolutamente vexaminoso.

Claro que a feira correu para dizer que não era bem isso e que o problema, na verdade, era que o dildo Osé não se enquadrava na categoria de produto de robótica e drone. Mas foi tarde demais. Primeiro porque isto poderia ter sido averiguado antes do prêmio ser concedido ou no mínimo antes do envio vergonhoso da carta que disse que ele feria a moral da feira.

Até porque alguns dos concorrentes parceiros de categoria eram: aspiradores de pó, skate e brinquedos infantis. Todos, claro, com robótica aplicada, assim como Osé.

Mas, como na nossa sociedade ainda vale a máxima "falem bem ou falem mal, mas falem de mim", Osé caiu na boca do povo justamente por sido banido. A indignação deu a ele mais palco do que o próprio prêmio e agora o nome de Osé circula pelo mundo arrancando indignação e discussões acaloradas.

Estamos juntos, Osé! Nunca te vi, sempre te amei. E sempre que precisar, estamos aí, defendendo a igualdade de gênero, o prazer feminino e o fim da hipocrisia.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

Mais Blog da Lia Bock