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Lia Bock

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Pessoas de bem jamais param em fila dupla. Nem "bem rapidinho"

Lia Bock

07/12/2018 05h00

(iStock)

Que parte da frase: "jamais pare em fila dupla" será que as pessoas não entendem? "Jamais" significa nem por cinco minutinhos e nem quando está chovendo. "Jamais" significa nunca e nunca inclui a hora de buscar na escola ou de colocar as coisas no carro no supermercado.

Imagine se toda a população motorizada da cidade resolvesse parar em fila dupla "porque é rapidinho". Estima-se que só a capital paulista tenha 8 milhões de veículos. Se cada um resolve parar na fila dupla por 5 minutos, estamos falando de 40 milhões de minutinhos, o que, se não me falham as contas, dá cerca de 28 mil dias, nada menos que 76 anos! (pausa dramática).

Pensar que esses minutinhos não importam revela o egoísmo do ser humano motorizado. Porque qualquer pessoa que pensa coletivamente sabe que se eu tenho direito a esse "rapidinho" para infringir as regras, os outros também têm. E assim, a babilônia segue caótica.

Sei que existem outras infrações de trânsito muitos graves, mas não tô aqui pra falar dos que dirigem bêbados ou passam a 80km/h numa via onde a velocidade é 30km/h, porque esses são potenciais assassinos, criminosos mesmo.

Tô aqui pra falar das pessoas de bom coração, de boa índole. Pessoas que fazem meditação, pagam todos os impostos e se consideram cidadãos de bem, mas… param em fila dupla "porque é rapidinho". Tô falando de (muita) gente que se julga um motorista atento, mas peca quando pensa que "rapidinho" nao está dentro de jamais.

Vamos aos fatos: outro dia, na frente de uma escola religiosa aqui perto de casa, uma senhora parou calmamente em fila dupla, desceu, pegou os filhos, colocou no carro, se certificou de que estavam de cinto, abriu o porta malas, depositou as mochilas e quando um senhor a repreendeu ela disse "faz parte. Tenha calma". Não, minha querida. Não faz parte.

Existem milhares de vagas nas ruas da região, que não têm nenhuma restrição severa de estacionamento. Pergunta: por que parar a duas quadras da escola e caminhar não é uma opção e atravancar o trânsito de uma galera que não tem nada a ver com o pato "faz parte"? E importante: o rapidinho dela não se enquadra no meu conceito de rapidinho.

Pra mim, rapidinho é 30 segundos. Mas como pode ser diferente para a pessoa do carro de trás, o melhor mesmo é esquecer este conceito.

Na frente do mercado, outra cena: o rapaz estaciona em fila dupla. Nada acontece. Então, a moça que ainda está empacotando as compras grita lá de dentro: "tô indo". Ele espera, assim como todos os carros que estão atrás. Ela acelera, aperta o passo e, de fato, demora "só alguns minutinhos". Minutinhos que ele poderia ter esperado 200 metros adiante estacionado numa das lindas vagas a vista.

Os cidadãos de bem adeptos do "rapidinho" que me desculpem, mas parar em fila dupla revela o escroto egoísta que há em nós.

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.