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Boicotar famoso sim, intimidar jamais

Lia Bock

31/10/2018 05h00

(iStock)

Está circulando por ai uma tal lista de artistas, intelectuais e personalidades a serem boicotadas por terem sido contra Jair Bolsonaro durante campanha presidencial. A chef Bel Coelho ficou feliz por estar bem acompanhada e vi gente decepcionada por não fazer parte do seleto grupo.

Boicote é isso aí. Uma questão de lado, de escolhas e princípios.

As pessoas estão no direito de boicotar quem quiserem. Eu, por exemplo, boicoto estabelecimentos golpistas ou com dono abertamente homofóbico. Deixar de comprar, deixar de seguir e conclamar os nossos a fazerem o mesmo é um direito. Azar de quem não come mais esfirra baratinha de um lado e de quem não escuta mais MPB do outro.

O que pega não é o boicote, mas a intimidação. Porque boicotar é uma coisa, perseguir e ameaçar é outra totalmente diferente. Quando uma pessoa resolve que nunca mais vai clicar neste blog, ela está em seu direito. Se ela conclama seus comparsas a fazerem o mesmo expondo seus argumentos, ela segue no seu direito. Mas quando um fulaninho ali no meio resolve dar uma cutucada na blogueira pra dar um 'sustinho' ou intimidar pesado, ai são outros quinhentos.

Boicote bom é boicote em massa

E eu vou dizer pra vocês: tem muito mais gente a fim de dar sustinho do que fazer um movimento sério de boicote. Tem muito mais gente tentando intimidar quem pensa diferente do que fazendo um trabalho orquestrado conjunto. Sim, porque boicote bom é boicote em massa.

Boicotar é interromper as relações. É deixar de regar financeiramente, deixar de frequentar, compartilhar ou assistir. Podemos dizer que é um virar as costas online e off-line. Por isso, mandar carta anônima para a casa da pessoa ou mensagens amedrontadoras no e-mail não têm nada a ver com boicote. Xingar na rua também é outro departamento, assim como perseguir, constranger e, óbvio, espirrar perdigotos sob palavras agressivas quando encontra sem querer no supermercado.

Boicote não é ódio, é inteligência, é estratégia. Você pode boicotar uma empresa que faz testes em animal ou uma atriz que defende o aborto. Pode boicotar o natal da família ou a aula de um professor assediador. Em nenhum desses casos você agride, intimida ou constrange a pessoa em questão.

Então, sejam firmes. Boicotem a Anitta e o Chico Buarque. Façam posts explicando suas posições, agreguem o máximo de gente possível, mas não atravessem a rua para encostar "o pessoal dos direitos humanos" na parede. Porque isso, meus amigos, é outra coisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Hoje comentarista na CNN Brasil e editora da plataforma Hysteria, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e também colunista da revista "Crescer".

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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