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Câmeras que só focam as pessoas "bonitas" nos estádios da Copa. Até quando?

Lia Bock

04/07/2018 04h00

(iStock)

Assistindo aos jogos da Copa tenho percebido o quanto as pessoas que frequentam este evento são aquelas consideradas "bonitas" pelos padrões tradicionais das mídias. Vocês já repararam? Focados pelas câmeras, vemos um exército de gente jovem, magra e de preferência acompanhada de crianças fofas. Quer dizer, isso sem contar o Maradona, o Higuita e o Valderrama.

Claro que o mundial é um evento caro e elitista e seu recorte é feito pelo bolso. Ali vemos rostos bem tratados e figurinhas carimbadas das elites de seus países. Gente bem tratada e de castas que se mantém no topo da pirâmide há séculos. Não é à toa que os torcedores brasileiros nas arquibancadas russas sejam em suas esmagadora maioria brancos – o que não representa a realidade nacional, onde 54% da população é negra.

Esse é um dado conhecido e não é exatamente o ponto aqui. Meu questionamento é onde estão as pessoas gordas, as pessoas mais velhas, aqueles que não tem a cara que nos empurram as propagandas e revistas? Não é possível que todos os torcedores de futebol (do mundo) tenham passado pelo padrão midiático hollywoodano de qualidade e que os únicos fora do padrão sejam, justamente, os famosos ex-jogadores – ah, sim claro, e também aqueles mega fantasiados.

É muito mais provável que estas pessoas estejam lá, mas não sejam o foco dos cinegrafistas ávidos por um rostinho "bonito". Não é possível que as fãs de futebol sejam em sua grande maioria loiras e que ninguém trabalhe com o mundialmente conhecido sobrepeso. Ou mais, que todos que estão fora do padrão estejam maquiados dos pés a cabeça ou em chapéus ultra exóticos.

Assistindo esses rostos todos sendo admirados pelo telão no campo e pelo mundo, me pergunto: que beleza é essa? O que estamos definindo como bonito? Principalmente nas arquibancadas da Copa, onde há emoção vazando por olhos e gestos, porque as lentes dos câmeras ainda buscam aquilo que o senso comum diz que é belo?

Em tempos de questionamento de padrões, não estaria na hora de buscarmos a beleza da emoção, da frustração, da tristeza e da alegria extrema que pincelam as arquibancadas dos estádios de futebol? Tantos gritos com a beleza emotiva de quem vira o jogo aos 48 do segundo tempo. Tantos lamentos doloridos (e do jogo) de quem toma esse gol e as câmeras atrás das "moças bem torneadas" e os "rapazes de boa aparência"? Me soa tão antiquado.

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.