Lia Bock

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A perseguição é contra os abusadores, não contra os homens

Lia Bock

10/01/2018 18h16

“Espero que a moda de denúncia sexual não chegue ao Brasil”, disse Danuza Leão em um (triste) artigo no jornal “O Globo” depois do bombástico Globo de Ouro. Danuza, eu ia dizer justamente o oposto: tomara que este movimento americano inspire e fortaleça as brasileiras a denunciarem seus abusadores. Tomara que sejamos contaminadas por esse senso de justiça e tenhamos coragem de encarar nossas delegacias tão despreparadas para esse tipo de caso. Tomara também que se crie uma rede que fortaleça as mulheres a dizer “agora chega: Vamos, sim, expor e denunciar quem cruzar a linha”.

Catherine Deneuve também intercedeu em favor dos pobres homens injustiçados: “Os homens têm sido punidos sumariamente, forçados a sair de seus empregos, quando tudo o que eles fizeram foi tocar o joelho de alguém ou tentar roubar um beijo”, diz o texto do manifesto que ela assinou juntamente com outras artistas francesas e publicou no jornal francês “Le Monde”. Quase chorei e pensei: será que ela leu o relato de Salma Hayek? Nos tantos casos o pau de fora, a invasão no quarto, a perseguição, a intimidação… na verdade era tudo paquera? A gente é que entendeu mal?

O texto das francesas tem lá seu propósito, quer evitar que arte seja confundida com pedofilia e que comportamentos sexuais sejam vistos como abuso. Mas não, Catherine: nós sabemos exatamente o que é paquera (até porque também paqueramos!) e basta ler os infindáveis textos sobre os casos americanos para percebermos que aquilo não tem nada a ver com flerte.

Homens, não vistam a carapuça

Dizer que o movimento feminista está perseguindo os homens é uma inversão total de papéis. E mais: é uma generalização bestial. Lembremos: os perseguidos são os assediadores e os estupradores. Não vistam a carapuça se vocês não fazem parte deste grupo, ok?

E se esse grito de basta fere os rapazes de forma geral, é porque talvez seja hora de repensar a masculinidade, de falar sobre comportamentos limítrofes e sobre cultura do estupro (que como eu já disse num texto recente, não tem nada a ver com o estupro em si, mas com a naturalização da violência sexual).

Já reduzir os assédios ao ato infantil de roubar um beijo é tão preocupante quando dizer que uma mulher só foi estuprada porque estava de saia curta ou fora de casa à noite. Culpar e desqualificar a vítima é uma tática antiga que conhecemos bem. E pra ela direi apenas: não passarão.

Raiva, mentira e vingança

Isso não significa que algum homem não tenha sido injustiçado por uma mulher movida por vingança. Raiva e mentira movem a humanidade desde sempre. Mas jogar todo mundo nessa vala é tão (mas tão) ingênuo que soa maligno.

Nunca achamos que seria fácil e nem que todas as mulheres se curvariam às demandas da igualdade de gênero, mas uma coisa é certa, Catherine e Danuza: brigaremos por vocês e por suas filhas e netas também. Porque brigamos por todas nós. Lutamos por um futuro onde “elogio na frente de uma obra” (como diz Danuza) seja o nosso maior problema. Por ora fiquemos com o fato de que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil.

Estejam do lado certo: aquele que separa homens de criminosos.

 

 

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a publicar os textos sobre relacionamento que escrevia desde a adolescência em 2008, no site da revista TPM, onde se tornou redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. É autora do livro "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)". Já morou em Pirenópolis e em Londres. Nasceu em 1978 e é mãe de dois meninos.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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