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Atualizem suas cartilhas da família!

Lia Bock

19/12/2017 15h09

(iStock)

Segundo o IBGE, o crescimento do número de divórcios entre 1984 e 2014 foi de 1007%. É tão alto que até estranhamos. Sim: mais de mil por cento! Isso quer dizer que em 20 anos casar e separar virou algo não só aceito, como natural.

E, em pleno século 21, ninguém separa para virar ermitão em algum lugar longínquo. Tão natural quando se separar é casar novamente (e assim por diante). Neste contexto, observamos uma proliferações de meios irmãos e irmãos de criação sem precedente. Ficou até difícil desenhar a árvore genealógica – e também: o que são genes frente a uma vida inteira dormindo no mesmo quarto de um irmão de criação, não é mesmo? Mais adequado passarmos a chamar de árvore da família.

Pra mim, esses conglomerados familiares são 'a nova família brasileira', que junto com os casais homo afetivos e as mães solo, sempre apoiadas em sua rede de amigxs, escanteiam o senso genético e fortalecem o contexto social.

Não há como negar: o patriarca foi (está sendo?) deposto e família já não cabe naquela definição tacanha que o mercado Hirota insiste (que erro) em reproduzir.

Aos donos do mercado deixo meu lamento profundo e insisto na ideia de que essas famílias diversas, tentaculares (e sem um chefe), têm muito a nos ensinar. Não seria exagero dizer que elas resgatam a vivência comunitária que em outros tempos acontecia na rua, no bairro e no mercado – a despeito da desigualdade de gênero. E relações que acontecem para fora de nossos umbigos e muros são fundamentais para uma movimentação menos egoísta e mais generosa.

Padrasto, madrasta, irmãos de várias categorias, primos que entram em nossa vida depois de grandes e avós que não constam da nossa (desatualizada) árvore, mas ai de quem tirá-los de nós: pessoas com quem dividimos responsabilidades e amor. E o que é isso se não família? Tragam cá pastor, Deus ou o Messias que seja para dizer o contrário. Já faz um tempo que laços consanguíneos dizem bem pouco sobre nós. Aproveitemos a virada de ano para deixarmos pra trás conceitos enraizados em terras mortas.

Paremos de insistir nesta ideia de família e comecemos a usar mais a palavra comunidade. Quem sabe assim despertemos desse egoísmo que nos faz uma sociedade racista, machista, homofóbica e profundamente triste.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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