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Lia Bock

Miss Universo: até quando “ser linda” vai ser motivo de prêmio?

Lia Bock

27/11/2017 15h34

Quem aí nunca se olhou no espelho e pensou que seria mais bonita se algo fosse diferente? A barriga, o peito, o nariz, o cabelo, a altura, o culote… Tem sempre alguma coisa nos separando da lindeza almejada. Daí a gente liga a TV ou a internet e dá de cara com o Miss Universo, o Miss Bumbum, o Miss Plus Size. Sou só eu que acho que esses concursos tem parentesco com àquela listinha feita (pelos mais bobos) com as meninas mais gatas da escola?

Até quando, meus Deus, teremos essa necessidade de classificar as mulheres de acordo com seus atributos físicos?

Monalysa Alcântara, a nossa "mais linda". @monalysaalcantara

Nesta madrugada vimos mais uma etapa do tradicional (ZZzzZZzz) Miss Universo. A brasileira, Monalysa Alcântara, 18 anos, chegou entre as 10 semifinalistas, mas não passou para a próxima etapa. Fico pensando nessa menina, no quanto ela se preparou e em como acredita estar num lugar importante. Mas logo me vem à mente as crianças que se espelham nesse tipo de concurso e, desde cedo, já organizam suas ideias pensando que é preciso ser magra, é preciso ser linda e mais que isso: é preciso ser a mais linda.

Nada contra mulheres lindas. Meu problema é mesmo com essa necessidade de botar pra concorrer, de se criar uma disputa toda centrada na beleza. Porque elas podem fazer o trabalho social que for, podem até falar de feminicídio (como fizeram as candidatas do Peru numa ação orquestrada), mas no fundo, o que vale mesmo é o corpo e os traços harmônicos. A "beleza".

Esse concurso foi criado em 1952, uma época em que mulheres ocupavam um espaço restrito na sociedade. As famílias tinham um chefe, ele era sempre o homem. Casar e cuidar das crianças era a missão feminina. Ser linda era uma das poucas formas de se destacar. Vá lá. Mas 65 anos depois a gente continuar com esse tipo de competição me parece um apego a valores que estamos tentando a duras penas deixar para trás.

Depois a turma vem dizer: "mulher é sempre competitiva". Claro. Somos estimuladas a isso, vide o Miss universo, o Miss bumbum, a lista das mais gatas de classe, as mais bem vestidas do Oscar, o Miss Febem, a mulher mais sexy do mundo e por ai vai. Tem sempre alguém ou alguma coisa dizendo que precisamos ser mais bonitas do que as outras, percebem? E o que é a beleza, não é mesmo? Essa coisa efêmera e totalmente individual.

Até quando "ser linda" vai ser elogio feminino? Até quando "ser linda" vai ser a principal meta das mulheres? Até quando "ser linda" vai ser motivo de prêmio? O Brasil é recordista em cirurgia plástica porque estamos todas atrás dessa beleza que nos convenceram ser tão necessária.

Quem sabe no dia em que pararem de nos bombardear com esses concursos e listas vamos conseguir olhar no espelho e sorrir com plenitude para o que vemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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