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Quem é a família brasileira?

Lia Bock

20/10/2017 08h00

(Imagem: Getty Images)

Quando políticos conservadores e religiosos no geral falam em nome da tal família brasileira e não me sinto contemplada, significa o quê? Minha família não é brasileira? Ou eles me veem como parte do mal que se embrenhou nesta imaculada entidade e precisa ser extirpado?

Eu sou família brasileira, sim. Assim como Alexandre Herchcovitch, Fábio Souza e seus filhos. Assim como Liniker, Pabllo Vittar e Gabriela Leite. Assim como Dandara, José Leonardo e muitos outros mortos por esse ódio irresponsável que insiste em criar um "nós contra eles".

Quando uma campanha como a da OMO para o dia das crianças, que propõe o fim da divisão entre brincadeira de meninos e meninas, é atacada como uma afronta aos bons costumes, está na hora de revermos os bons costumes. Bom costume é respeitar as diferenças e não se sentir atacado pela opção do vizinho. Bom costume é enxergar que incentivar o ódio leva a assassinatos de inocentes. Bom costume é saber que 'diferente' é uma coisa e 'errado' é outra.

O que esses representantes do ódio querem com essas campanhas é amedrontar a família brasileira que não segue seus preceitos e intimidar marcas e empresas a não assumirem o discurso com o qual concordam por medo de virarem assunto na internet. Muitas marcas pensam como OMO (Unilever), mas se acovardam diante do flaXflu de valores que virou a internet.

O filme "Repense o elogio", da diretora Estela Renner é a nova vítima. Patrocinado pela Avon, o longa, que nem estreou ainda, virou o novo saco de pancada de Felicianos e afins. O trailer tem 16 mil comentários (e subindo), quase todos de repúdio e ódio. Seu pecado? Colocar na tela tudo aquilo que a ciência e a vivência vêm mostrando: mamamos machismo na mamadeira e desde a infância vamos sendo moldados de acordo com esse preceito que, um dia, fez parte da apostila dos bons costumes.

Mas o mundo mudou e outras famílias brasileiras puderam ocupar seus lugares com orgulho – porque eles (nós) sempre estiveram lá, mas escondidos e calados. E aqui não quero incitar o ódio. Apenas mostrar que há espaço para todos. Quer criar seus filhos sobre os preceitos do pastor, não deixando o menino pegar a boneca e proibindo a filha de jogar futebol? Siga em frente. Mas não queira mudar aqueles que pensam ou vivem de maneira diferente.

Somos todos "família brasileira". E tem sabão em pó, filme e respeito pra todo mundo.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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